Vicente Tardío
"As agências de rating ajudaram a piorar a crise" POR MÁRCIO KROEHN

Vicente Tardío, presidente da Allianz para a América Latina
O espanhol Vicente Tardío fala com paixão e bom humor do Brasil. E não poderia ser diferente. Presidente da seguradora Allianz para a América Latina e a Península Ibérica, ele, com o resultado brasileiro, agradou à matriz na Alemanha no ano em que todas as seguradoras mundiais ficaram em estado de alerta. Apesar de o Brasil não estar no radar de preocupação, o grupo alemão tinha um motivo para ficar apreensivo: como seria recebida a estratégia global de substituição das marcas das controladas locais para Allianz. A centenária marca AGF, adquirida pelos germânicos em 1997 e muito conhecida no Brasil, foi parar nos livros de história do grupo. "Tivemos uma troca bem-sucedida", orgulha- se Tardío. Esse trabalho delicado foi conduzido pessoalmente por Max Thiermann, presidente da empresa no País. Thiermann conseguiu deixar clara a estratégia tanto para seus funcionários como para os clientes e corretores. E, por isso, não teve seu resultado anual prejudicado.
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A unidade Brasil faturou R$ 1,9 bilhão e teve lucro líquido de R$ 74 milhões. Tardío só muda sua expressão quando o assunto é a crise econômica. É a grande preocupação desse sexagenário executivo, que responde com franqueza sobre os caminhos que fizeram as finanças mundiais inflarem na mais perigosa das bolhas. Pensativo, Tardío analisa as agências de classificação de risco, que, segundo ele, foram relapsas em seus trabalhos e agravaram os problemas mundiais. Seu diagnóstico é de tempos difíceis para o continente Europeu, principalmente para a Espanha. Embora não cite os nomes, sua crítica é direta às seguradoras que assumiram uma posição de agentes financeiros, com muitos ativos alocados em renda variável. Alguns dias depois desta entrevista, em sua passagem relâmpago pelo Brasil, a seguradora AIG pediu novo socorro ao Tesouro Americano e Ben Bernanke, presidente do Fed, comparou especificamente essa companhia a um fundo de hedge (semelhante aos nossos multimercados). Até a terça-feira 17, a ação da Allianz na Bolsa Europeia estava em queda de 20% em 12 meses. É um desempenho melhor que suas concorrentes. A Zurich caía 34% e a ING, 50%. Embora confie no desempenho da seguradora, Tardío prefere ser realista. "Este ano teremos balanços pouco brilhantes", afirma ele nesta entrevista à DINHEIRO:
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DINHEIRO - A crise está prejudicando o crescimento mundial e 2009 tende a ser um ano ruim. Como o sr. vê a situação do Brasil?
VICENTE TARDÍO - A crise financeira não chegou pesada ao País. Foram atingidos países da Europa e os EUA, de onde borbulharam todos os problemas via crédito imobiliário. Agora está afetando individualmente e em escalas diferentes os outros países. E virou um problema global, sem dúvida. O Brasil foi pouco afetado, mas a posição do país mudou nos últimos anos. O Brasil melhorou em muitos aspectos, enquanto outros países pioraram. É só pegar a classificação dos bancos brasileiros, que hoje estão melhores que muitas instituições estrangeiras.
DINHEIRO - Por que o sr. destaca o Brasil?
TARDÍO - A crise afetou a todos, dos desenvolvidos aos que estão em desenvolvimento. Mas o Brasil foi, de todos eles, o que melhorou. Veja o crescimento do PIB. E neste ano a expectativa é ter um PIB positivo enquanto a maioria dos outros países terá uma retração.
DINHEIRO - Os países europeus estão em pior situação?
TARDÍO - A Espanha é o mais afetado. O país teve um crescimento extraordinário nos últimos anos, mas ele não foi diversificado. Estava concentrado em três atividades econômicas: mercado imobiliário, indústria automobilística e turismo. O primeiro está totalmente destruído e o segundo está muito mal. O maior problema é que as fábricas não são espanholas. Montadoras com sede em outros paí-ses europeus, por exemplo, quando vão reduzir o número de empregados, colocam a Espanha como prioridade. Só depois pensam nos seus países-sede. Por fim, o turismo será afetado com a perda de poder aquisitivo de todo europeu. É um panorama difícil. E o desemprego, um dos maiores do continente, chegou a quase 20% no final do ano. Isso implica redução de consumo. Quem estava comprando, parou. E quem tem medo do desemprego vai reduzir as compras. Definitivamente, não sou otimista com a situação da Europa.
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