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O maestro da guitarra virtual Bobby Kotick considera jogos eletrônicos uma "perda de tempo". mas ele transformou o Guitar Hero num negócio de US$ 2 bilhões
JOSÉ SERGIO OSSE

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BOBBY KOTICK: tudo começou com a compra de uma empresa praticamente quebrada |
MESMO QUEM NÃO TEM INTERESSE EM videogames já ouviu falar, ainda que sem saber ao certo do que se trata, do jogo Guitar Hero. Revolucionário, ele libertou o jogador do joystick e, de quebra, atraiu o público adulto, que nem sempre consome videogames por conta dos controles complicados. Desde seu lançamento, em 2005, já foram vendidas 25 milhões de cópias do Guitar Hero, que renderam US$ 2 bilhões à Activision, detentora dos direitos do jogo e que é hoje a líder mundial desse mercado. Por trás dela, zelando por seu sucesso, está um inusitado investidor que acredita que videogames são "uma perda de tempo" e que disputou sua última partida de jogos eletrônicos na década de 1970, quando estava no colegial: Robert Kotick. Bobby, como é conhecido, tem o capitalismo nas veias. Quando adolescente, em vez de frequentar festas, preferia alugar galpões da moda em Nova York, como o Studio 54, e promover as suas próprias - cobrando ingresso, é claro. Além disso, criava fontes de receitas adicionais, como a venda de sorvetes aos adolescentes que iam a suas festas. Na faculdade, Bobby se uniu a um colega de dormitório para desenvolver sistemas operacionais para computadores. O amigo ficaria responsável pelo desenvolvimento do software e Bobby se encarregaria de vendê-lo. Não deu certo, mas o faro estava lá: pouco tempo depois Bill Gates lançou o seu Windows e o resto é história.

Em 1991, Bobby estava mais preparado. Após estudar a fundo a concorrência, decidiu investir num quase falido birô de programação de jogos, a Activision. Criada em 1979 por ex-programadores da Atari, a Activision foi a pioneira no desenvolvimento de jogos para hardwares fabricados por terceiros. Mas, em 1991, estava à beira do colapso, com uma dívida de US$ 30 milhões, quinze vezes mais que o valor de todos seus ativos. Bobby colocou US$ 400 mil na empresa, apelou para o Chapter Eleven (a lei de concordata dos EUA) e tornou-se dono de 9% da Activision. A seguir, levantou US$ 5 milhões com amigos e mudou a sede da companhia do Vale do Silício para Los Angeles. Dos 150 funcionários, manteve apenas oito. Em 1992, levantou US$ 40 milhões na Bolsa de Nova York. Internamente, Bobby fazia uma espécie de pregação, dizendo a seus programadores que a Activision não mergulharia em uma "cultura de Estrela da Morte", transformando seus produtos em commodities. A alusão ao já cult universo de Guerra nas Estrelas funcionou, e os jogos de sucesso começaram a aparecer.
Externamente, Bobby absorvia um número cada vez maior de pequenos birôs de programação de jogos. A cada um deles, oferecia a possibilidade de manter seus nomes, liberdade para desenvolver o que quisessem e dados de mercado que as novas subsidiárias poderiam ou não usar para direcionar seu trabalho. Foi exatamente por meio de uma dessas aquisições, a da RedOctane, que Bobby colocou as mãos pela primeira vez em uma guitarra do Guitar Hero. Pelo controle da empresa, e do jogo, foi paga a bagatela de US$ 100 milhões - soma minúscula perto da receita gerada pelo programa, que ainda vende como água. Com um aumento de 15% nas vendas de jogos e softwares nos EUA em 2008, segundo dados da consultoria NPD, e uma perspectiva positiva para este ano, na contramão da crise, a Activision está no caminho certo com o Guitar Hero. A fusão com a francesa Vivendi, completada em julho do ano passado, também garantiu a Bobby acesso ao jogo mais lucrativo da história, o World of Warcraft. Sozinha, essa plataforma online rende US$ 1 bilhão anualmente em receita, o que abre um novo caminho para o investidor que vive de jogos, ainda que ignore a diversão proporcionada por seus próprios produtos. |