Anuncie
Assine Três
 
  IstoÉ Dinheiro
 
Entrevista
Imprimir
 
"Chegou a hora do enfrentamento "
POR HUGO CILO

comente a matéria

Nos últimos anos, as centrais sindicais no País viveram dias visivelmente confortáveis. O crescimento econômico criou espaços para conquistas salariais e fortalecimento das relações entre patrões e empregados. Tudo ia bem entre sindicalistas, entidades patronais e governo. Mas a lua-de-mel acabou. O anúncio de 4,2 mil demissões na Embraer há duas semanas, sem nenhuma negociação com sindicatos ou governo, expôs a fragilidade do movimento sindical brasileiro, a incapacidade do Palácio do Planalto de evitar cortes em massa e a intensidade da crise. Em entrevista à DINHEIRO, o presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Artur Henrique da Silva Santos, afirma que não havia razões para as dispensas da Embraer e de outras grandes empresas, como a Vale. "Eles estão tendo lucros recorde e ainda assim demitindo."

DINHEIRO - A Embraer demitiu mais de quatro mil trabalhadores há duas semanas sem conversar com o governo ou negociar com os sindicados. Isso surpreendeu a CUT?
ARTUR HENRIQUE - Fazia algumas semanas que circulavam rumores de cortes na Embraer. Falavam em três mil demissões por conta da suspensão dos pedidos de aviões. Eles já estavam começando a preparar o espírito da moçada para os cortes. Mas tudo ainda sem nenhuma confirmação. O nosso sindicato lá, o Sindiaeroespacial, estava tentando se reunir com diretores da empresa. Criamos um conselho com representantes de bancos estatais e do BNDES para discutir o assunto. Mas os cortes, realmente, não foram negociados. Um absurdo!

DINHEIRO - Mas a Embraer é uma empresa privada e não precisa, legalmente, avisar que vai demitir.
HENRIQUE - Realmente a empresa não precisa avisar que vai demitir, infelizmente. A questão é moral. Uma parte da produção da Embraer é voltada ao mercado interno, com vendas para o próprio governo. Ao demitir, o presidente da Embraer alegou que contratou, no ano passado, dez mil empregados. Mas a empresa tinha no ano passado a perspectiva de entregar 194 aviões, entregou 205. Ela fechou o ano passado com lucro e diz que este ano tem uma expectativa de redução da margem, não prejuízo. Além disso, as demissões são uma clara demonstração de incompetência administrativa. Uma empresa que recebe dinheiro do governo, que tem relações com o governo e depende do governo porque os empréstimos são subsidiados, não pode dispensar sem sequer nos avisar.

DINHEIRO - Que tipo de proposta a Embraer poderia fazer?
HENRIQUE - No mínimo, a decisão deveria ter sido negociada com as entidades sindicais. Não houve proposta de férias coletivas, de redução de jornada. Nada, nada. Na nossa opinião, esse foi o maior problema. Não conversou com os sindicatos e ignorou o governo ao demitir 20% dos trabalhadores.

KARIME XAVIER/AG. ISTOÉ

DINHEIRO - A CUT não vai reagir?
HENRIQUE - Já estamos reagindo. Temos feito manifestações, entramos com uma ação na Justiça porque a empresa não cumpriu esse rito de negociações, estamos organizando outras manifestações, inclusive na porta da empresa. As ações políticas e jurídicas serão casadas. Afinal, são mais de quatro mil famílias em dificuldades.

DINHEIRO - Há risco de uma greve?
HENRIQUE - É difícil fazer uma greve depois de quatro mil demissões. A mobilização é complicada porque os que ficaram têm medo de perder o emprego. Estamos exigindo que a Embraer comprove sua dificuldade, além de mostrar o que fez com o dinheiro que ganhou em 2008. O empresariado parece que esquece dos recordes de lucro. O que fizeram com aquela montanha de dinheiro? Compraram terreno, iate, casa em Angra dos Reis ou dividiram em bônus com os executivos?

DINHEIRO - Mas a Vale fez o mesmo que a Embraer e não houve reação.
HENRIQUE - O presidente da Vale, Roger Agnelli, é um oportunista. A empresa que ele comanda teve mais de R$ 20 bilhões de lucro no ano passado. Vários setores estão se utilizando da crise para fazer ajustes nas empresas. Qualquer empresário pode justificar demissões, mas não tem desculpa uma empresa que teve o maior lucro da história. Administrar assim é fácil. No primeiro contrato suspenso, manda embora. Assim, até eu administro.

DINHEIRO - O presidente Lula, que sempre citou a Embraer com orgulho, disse que não sabia das demissões, mas também não pediu para rever a decisão nem ameaçou cortar empréstimos.
HENRIQUE - O governo não tem que aceitar ou não aceitar. O papel do governo é governar. Mas, sem dúvida, houve uma mudança de postura do governo de uns tempos para cá. A gota d'água foi quando nos reunimos com o governo para propor que os incentivos tivessem contrapartidas e no dia seguinte foram anunciados o ajuste na tabela do Imposto de Renda e a redução do IPI sem nenhuma exigência. Começamos a criticar o governo. Meu Deus! Já fizemos isso na época da Dorothea Werneck, com o Collor e em muitos outros governos.

PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>
 


Edição Digital
Boletim
Gratuitamente,
receba as últimas
notícias e conteúdo
exclusivo do site.


Entrevista
Imprimir
   


Busca:
Sites Editora Três

Seções
Capa | Dinheiro Investidor | Dinheiro na Semana | E-commerce | Economia | Entrevista | Estilo | Finanças | Horóscopo | Negócios | Reportagens | Especial | Artigo
Serviços
Fale Conosco | ISTOÉ Dinheiro Digital | Expediente | Anuncie | Assine
Revistas TRÊS
IstoÉ | IstoÉ Dinheiro | IstoÉ Gente | Motorshow | Planeta | Dinheiro Rural | Go Outside | Menu

Gerenciamento de Conteúdo / CMS - ContentStuff.com