O FUTURO DA ENERGIA
Vento a favor Potencial brasileiro em energia eólica pode gerar investimentos de US$ 150 bilhões nos próximos dez anos
Por Rosenildo G. Ferreira

ATÉ O FINAL DE 2010, OS CONSUMIdores americanos poderão comprar em supermercados e lojas de departamento uma turbina eólica residencial. Para colocar o produto para funcionar bastará instalá-lo no telhado de casa e conectá-lo à fiação da casa. Na primeira lufada de ar o equipamento gera 40 quilowatts por mês, suficientes para prover a iluminação de uma residência-padrão. O projeto bancado pelos donos do Google é apenas uma pequena amostra de como a energia eólica está ganhando cada vez mais adeptos. Por aqui, essa modalidade de geração de energia ainda está em fase embrionária, apesar de o País possuir um potencial de geração equivalente a 210 gigawatts (GW). Montante equivalente a uma vez em meia ao que é produzido atualmente por todas hidrelétricas, termelétricas, além da usina nuclear de Angra I, existentes no Brasil. Mesmo se levarmos em conta que apenas uma parcela disso (60 GW) pode ser explorada, devido a restrições ambientais e à viabilidade econômica dos projetos, o número credencia o Brasil a se tornar uma grande potência no segmento eólico. Pelo lado financeiro a estimativa é que a exploração desse potencial poderia movimentar US$ 150 bilhões. E o primeiro passo já foi dado. O Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia (Proinfa) prevê a adição de 1,1 gigawatt à matriz energética, o que representaria um investimento de US$ 2,5 bilhões apenas em equipamentos, sem contar as obras de infraestrutura e as linhas de transmissão. Esses números estão despertando a cobiça de fabricantes de aerogeradores. A alemã Siemens, por exemplo, acaba de trazer sua divisão de energia renovável para o País. Caberá ao escritório paulista cuidar dos negócios dessa área na América do Sul. Em termos globais, esse segmento rendeu US$ 2,7 bilhões aos cofres da Siemens em 2008. Outra que está reforçando sua estrutura por aqui é a americana General Electric, que lidera esse mercado nos EUA e arrecada US$ 7 bilhões com a venda de turbinas em nível mundial.
R$ 143 milhões foi o valor investido pela IMPSA para erguer
uma fábrica de turbinas no Recife (PE)
Apesar do interesse dessas corporações e dos números envolvidos nessa área, a geração de energia eólica ainda está longe de ser expressiva. Hoje, os ventos garantem 376,4 MW, ou 0,36% de toda a matriz energética do Brasil. São fazendas como as instaladas pela australiana Pacific Hydro, na Paraíba; pela espanhola Enerfin/Enervento, no Rio Grande do Sul; e pela portenha IMPSA Wind, no Ceará e em Santa Catarina. Essa última, inclusive, investiu R$ 143 milhões para erguer uma fábrica de aerogeradores no Porto de Suape (PE). Boa parte da produção vai abastecer os 12 parques eólicos que a própria IMPSA está implantando no Ceará (dois) e em Santa Catarina (dez). "Os projetos deverão representar um desembolso de R$ 1,7 bilhão e boa parte dos financiamentos está sendo contratada junto à Caixa Econômica Federal e ao BNDES", conta Santiago Miles, gerente de relações institucionais da IMPSA Wind. A General Electric e a Simens também estudam fabricar localmente esse material. Os demais projetos estão "tecnicamente" travados porque o governo ainda não encontrou uma sistemática adequada de leilões para a comercialização dessa energia. Sem demanda cativa por parte de distribuidores e geradores, poucos se arriscam a despejar milhões de reais na modalidade. O impasse é atribuído a diversos erros estratégicos cometidos pelos órgãos que cuidam do setor. "O governo deveria criar leilões específicos para energia eólica", defende Eduardo Ângelo, diretor de desenvolvimento de energia renovável da Siemens. Segundo ele, ao colocar essa fonte no mesmo pacote da termelétrica e da hidrelétrica, o governo ajudou a disseminar a ideia de que a opção eólica tem custo final elevado. |