Baixa o IPI, Obama Por Luiz Fernando Sá
 |
Ver a GM de joelhos beira o inacreditável, assim como surreal parece boa parte das notícias que chegam dos EUA
|
No princípio, era o caos financeiro. A crise global era assunto de bancos, seguradoras, fundos, todos envolvidos com títulos podres como os do chamado subprime imobiliário americano. Ninguém ignorava a magnitude dos problemas que, a partir da maior economia do planeta, contaminavam mercados mundo afora através das redes de transações globais. A preocupação foi aumentando proporcionalmente ao tamanho do rombo. Mas não se imaginava a quantidade de ícones do capitalismo que seriam arrastados para a lama dos financistas espertalhões, que inflavam resultados com o vento de operações sem controle. Quando antigas rochas que sempre julgamos sólidas começam a ruir, a crise mostrou seu lado mais surpreendente - e, talvez por isso, mais assustador.
O exemplo da indústria automobilística é o mais emblemático. Inventoras das linhas de montagem, as montadoras sempre foram vistas como motores do desenvolvimento, o retrato da capacidade de um povo de projetar, produzir e inovar. De certa forma, foi com GM e Ford à frente que os Estados Unidos consolidaram sua posição de grande potência econômica mundial. Quando Toyota e Honda avançaram sobre o mercado americano, ninguém mais teve dúvidas do poderio industrial do Japão. Agora, esses símbolos da pujança americana estão atolados e não demonstram ter condições de voltar a liderar o comboio da recuperação do país. A repercussão de seu fracasso é tão impressionante que os americanos já começam a tratar a crise como uma depressão automotiva, e não mais como um desastre financeiro.
Ver uma GM de joelhos beira o inacreditável, assim como surreal nos parece hoje boa parte das notícias que chegam a toda hora dos Estados Unidos. Na terça-feira 3, por exemplo, foram divulgados os números de vendas de carros novos por lá no mês de fevereiro. Os 689 mil veículos informados representam uma queda de 40% em relação ao ano anterior e colocam a indústria nos mesmos patamares dos anos 70. Um dia antes, a Anfavea anunciou que no Brasil as vendas de veículos reagiram e chegavam a 250 mil unidades, 8% acima de fevereiro de 2008. Comparados os dados de lá e cá, percebe-se o tamanho do descompasso entre o que antes se julgava país desenvolvido e o mercado emergente. Historicamente, o maduro mercado dos EUA costumava ser pelo menos seis vezes maior que o brasileiro. No mês passado, não foi sequer o triplo.
Tanto quanto a constatação, impressiona a rapidez com que os cenários se alteram. A crise financeira deteriora a economia americana em um ritmo alucinante, enquanto por aqui pilares como a indústria automobilística ou o agronegócio mantêm-se sólidos. A redução do IPI pelo governo brasileiro deu uma mão às montadoras, mas lá na matriz nem mesmo os bilhões de ajuda governamental conseguem guinchá-las para fora do atoleiro. De tão irreal que parece, não seria improvável que um gaiato propusesse ao presidente Barack Obama imitar o que fez o Brasil: "Baixa o IPI, Obama."
Instrumentos fiscais são uma arma importante e estão no arsenal de medidas das autoridades americanas. Ocorre que elas são menos efetivas numa economia viciada em crédito anabolizado. Se grandes grupos industriais hoje sofrem ainda mais os efeitos da crise financeira é porque há vários anos eles mesmos viraram as costas para suas origens e enxergaram lucros mais fáceis na concessão de crédito do que na produção de bens. Mais uma vez as montadoras são um exemplo mais notório. Seus braços financeiros são maiores que grande parte dos bancos e hoje sofrem as consequências de terem estendido por anos a prática de mover as linhas de montagem com juros subsidiados aos consumidores. Outro caso que hoje preocupa os EUA é o da GE, orgulho da indústria local. Sinônimo de inovação e gestão, ela ancorou seus resultados mais recentes nos ganhos estratosféricos da GE Capital, seu tentáculo bancário, hoje totalmente enrolado no emaranhado financeiro americano. Muitos acreditam que também ela não desata tão facilmente esse nó. |