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O luto da Embraer
Como a demissão de 4,2 mil pessoas abalou a imagem de uma das empresas mais admiradas do País e o que o presidente Frederico Curado pretende fazer para curar as feridas

Por Leonardo Attuch, Adriana Nicacio e Claudio Gatti (fotos)

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Cria da Embraer, CURADO vive a hora mais dura de sua CARREIRA

BRASÍLIA, 4 DE MARço, 10 da manhã. Num cortejo fúnebre, sindicalistas e 100 funcionários demitidos da Embraer aproximam-se do Palácio do Planalto. Carregam faixas, cartazes e um caixão com a foto do executivo Frederico Curado, um engenheiro carioca que se graduou pelo Instituto de Tecnologia Aeronáutica, em São José dos Campos, e dedicou toda sua vida profissional à empresa brasileira de aviação. Passou por diversas áreas da companhia até chegar à presidência, em 2007. No ponto alto da manifestação, os trabalhadores fizeram o enterro simbólico do seu presidente. Era um protesto pelas 4,2 mil demissões anunciadas há pouco mais de uma semana. Longe dali, Curado acompanhava aquelas cenas com um nó na garganta. "Pode parecer piegas, mas eu também estou de luto", disse ele à DINHEIRO (leia sua entrevista exclusiva à página 40). Entre os demitidos, havia algumas pessoas, técnicos, operários e engenheiros, que ele conhecia de perto. "Meus amigos."

Curado assume o ônus da decisão solitária que tomou. "Responsabilidade minha." E sabe que os cortes abalaram diretamente a imagem da companhia - nos últimos anos, retratada como uma espécie de "namoradinha do Brasil". A empresa símbolo de uma nação vitoriosa, capaz de exportar para o mundo todo produtos de alta tecnologia. Mas que, de repente, no primeiro susto, não teria pensado duas vezes antes de mandar para casa 4,2 mil pessoas. A tal ponto que o próprio presidente Lula chegou a se dizer traído, por não ter sido avisado com antecedência. Trabalhadores também se mostraram indignados. "Não nos propuseram nada", disse à DINHEIRO o presidente da CUT, Artur Henrique. "Foram demitindo sem pensar em redução de jornada ou até mesmo de salários, como muitas empresas estão fazendo para enfrentar a crise." A esperança dos empregados era tentar anular as demissões no Tribunal Regional do Trabalho, em Campinas - o caso foi julgado na quinta-feira 5, após o fechamento desta edição da DINHEIRO.

Clientes estão deixando de buscar suas encomendas

Abatido com as críticas, o presidente da Embraer elenca uma série de razões para justificar os cortes, que podem reduzir em até US$ 200 milhões as despesas da empresa. "Aconteceu o que os analistas definiriam como uma tempestade perfeita", diz ele. Uma brutal redução da demanda, combinada com escassez de crédito. Na aviação executiva, em que a Embraer atua com aeronaves como o Legacy e o Phenom, as novas encomendas sumiram. E houve até casos de compradores que desistiram de retirar os pedidos. Na aviação comercial, as grandes operadoras de linhas aéreas mantiveram as encomendas dos aviões da linha ERJ, mas pediram mais prazo para retirar as aeronaves. "Não estamos falando aqui de um fenômeno passageiro, que possa ser enfrentado com redução de jornada", diz Curado. "E o nosso ciclo de produção é longo; não dá para ajustar estoques em um ou dois meses."

A imagem de uma tempestade, comum no mundo da aviação, também reflete com crueza o que aconteceu na vida de milhares de famílias. William Fernandes, 29 anos e 11 de Embraer, chegou chorando em casa, depois de receber a carta de demissão. Ao encontrar a esposa, Rita de Cássia, disse que iria viajar. "Meu bem, estou indo a Brasília ver o que a gente consegue com o Lula", disse ele. Rita não pensou duas vezes. Pegou o filho Alexandre, 6 anos, e entrou no ônibus com o marido. Na marcha da quarta-feira 4, sob o sol escaldante do Cerrado, lá estavam os três, ainda com as marcas no rosto de várias noites maldormidas - e sem dinheiro sequer para comprar um picolé para o guri. Assim como eles, o mecânico Leopoldo Augusto dos Santos, 30 anos e 12 de Embraer, parecia estar desnorteado em Brasília. "Meu mundo desmoronou", disse ele. Um pequeno sorriso brotou no seu rosto apenas quando veio a lembrança de uma viagem profissional ao outro lado do mundo - Santos foi a Pequim ensinar operários chineses a montar o avião ERJ-190. "Eles falavam um inglês estranho e a gente também arranhava."

Funcionários como William e Leopoldo, experientes e treinados, não se encontram em qualquer esquina. "Justamente por isso, não nos interessava perdê-los", diz Curado. "Se fizemos as demissões, foi porque era absolutamente necessário." O presidente da Embraer diz que a empresa fará o máximo para recolocar seus ex-empregados. Além disso, pagará durante um ano o plano de saúde para as famílias. Aos trabalhadores, que foram recebidos no Planalto, o presidente Lula prometeu ajuda. Disse que telefonaria à companhia, insistindo mais uma vez para que as demissões fossem suspensas. Além disso, o governo decidiu comprar um jato, que seria vendido a um comprador da Rússia, e dois aviões de grande porte, que substituirão os "sucatinhas", usados pelos ministros em suas viagens pelo País. No encontro em Brasília, os sindicalistas também cobraram "reciprocidade", em função do apoio financeiro que a empresa recebe do governo. "A empresa já levou mais de US$ 8,3 bilhões do BNDES e, se não respeita os trabalhadores, é preciso rever a privatização", diz o presidente do sindicato dos metalúrgicos de São José dos Campos, Adilson dos Santos.


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Empréstimos do BNDES, no entanto, não são favores. E rever a privatização seria o caminho para a ruína da empresa. No início dos anos 90, a Embraer estatal, que vendia poucas unidades de pequeno porte, chegou a ter dez mil funcionários. Era um antro de ineficiência. Antes da venda, em 1993, fez-se o primeiro ajuste e ela chegou a seis mil empregados. Depois da privatização, com a compra pelo Bozano, Simonsen e pelos fundos de pensão, a empresa encolheu ainda mais, chegando a três mil empregados apenas. Havia receios sobre a própria sobrevivência da companhia - e Frederico Curado já estava lá. "Nós vimos a morte de perto", diz ele. Foi só a partir daí que a empresa começou a se recuperar. No ano passado, ela estava com 21 mil funcionários e pronta para vender quase 350 aviões - em 2009, na melhor das hipóteses, serão entregues 240 aeronaves. E, ainda assim, de menor valor. O faturamento da companhia, que foi de US$ 6,5 bilhões no ano passado, deve cair para US$ 5,5 bilhões neste ano. O lucro, no entanto, deve ser mantido em US$ 600 milhões, o que foi elogiado por analistas de bancos de investimentos. Segundo Vinícius Canheu, do Credit Suisse, os cortes parecem "inevitáveis". Ronald Epstein, da Merrill Lynch, destacou o fato de a Embraer ter sido a primeira empresa de aviação a antecipar para o mercado financeiro a perspectiva de um cenário ruim. Mas outras concorrentes também estão se ajustando. A Cessna, que produz o jato Citation, anunciou a demissão de um terço do seu quadro de pessoal. Na aviação executiva, em que até o ano passado havia ágio na compra de aeronaves, a reversão foi completa. Segundo Curado, um em cada cinco jatinhos no mundo está à venda.

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