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Quer emprego? Seja polivalente
POR JOSÉ SERGIO OSSE

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O começo de 2009 no Brasil surpreendeu as agências de recrutamento de executivos. Após uma queda no volume de vagas em setembro, por conta da crise, o mercado se estabilizou em um patamar próximo ao do mesmo período de 2008. A diferença é que, agora, as empresas estão mais exigentes na hora de contratar e oferecendo salários e benefícios mais baixos, disse à DINHEIRO Luiz Valente, que comanda a operação brasileira da Hays, empresa de headhunting que, em três anos no País, já intermediou a contratação de 2,5 mil executivos. Segundo ele, há muito mais gente procurando emprego do que vagas sendo abertas. Mesmo assim, Valente vê boas oportunidades de carreira, especialmente se o executivo tiver o perfil adequado às necessidades da empresa que abriu a posição. "Quem é mais maleável sofre menos em momentos de crise", afirma.

DINHEIRO - Desde que a crise estourou, em setembro, muita gente perdeu o emprego. Nesse cenário, como tem sido o movimento de procura por executivos?
LUIZ VALENTE - De lá para cá, houve uma redução de 20% no volume de vagas abertas. Em julho e agosto não sentimos, na verdade, a crise, pois a demanda por executivos persistiu e, inclusive, se concretizou. A partir de setembro, porém, a demanda começou a cair. O que nos surpreendeu foi que, no início deste ano, houve uma retomada em relação aos meses anteriores. Os setores de construção civil, o mercado imobiliário, as empresas de commodities e o setor financeiro, assim como o setor de bens duráveis recuaram fortemente nos últimos meses. Por outro lado, algumas indústrias, como a tecnologia e telecomunicações, a de farmacêutica e a de cosméticos, mantiveram a oferta e foram as principais responsáveis pelo bom resultado do início do ano.

DINHEIRO - O que as empresas têm oferecido para os novos executivos dentro dessa conjuntura de crise?
VALENTE - É óbvio que, em momentos de crise, todas as empresas tendem a endurecer na negociação salarial. Isso é totalmente relacionado à situação econômica. No passado, com um mercado demandante e em expansão, elas aumentaram a oferta de salários e de bônus. Agora é o contrário. Elas estão procurando conter a oferta de salário fixo e, principalmente, de bônus, que estão, na verdade, caindo. O principal impacto que percebo é que as empresas estão redesenhando os processos internos e as funções compatíveis com esses novos processos. Há uma leva de contratações, inclusive, motivada pela necessidade de adequar o perfil da força de trabalho da companhia a essa nova realidade. O valor do bônus, por sua vez, dependendo do setor e do mercado, chegou a cair até 30% e, em algumas empresas, ficou atrelado a exigências mais rígidas. Há, nas empresas, uma forte pressão por resultados e isso se reflete nas ofertas para novos executivos.

DINHEIRO - Então não houve corte total nos bônus?
VALENTE - Não, isso não. Eles continuam sendo oferecidos e, em alguns segmentos, inclusive, em patamares muito similares ou até iguais aos do passado. É o caso de funções relacionadas à gestão estratégica do negócio, por exemplo. Hoje, executivos nesses cargos, mais do que em qualquer outro momento, são importantes para as organizações, pois fazem a diferença na empresa, o que garante a ela vantagem competitiva. Por isso é que são valorizados em momentos como este. Essas funções também são menos penalizadas nas ofertas de bonificação do que, por exemplo, cargos de áreas mais operacionais. Há, até mesmo, casos de um pacote de benefícios mais atraente sendo oferecido para esses executivos hoje no mercado. As empresas podem cortar todo o tipo de custos, mas procuram preservar a motivação de seus executivos, pois sabem que, sem o comprometimento desses profissionais, não enfrentarão a crise com sucesso.

DINHEIRO - Qual é o perfil de profissional que as empresas têm buscado na crise?
VALENTE - Há dois aspectos que norteiam a procura das empresas, o técnico e o pessoal. No aspecto técnico, pesa a capacitação do profissional e sua visão de negócio, que tem que ser bem apurada, assim como sua visão estratégica e de mercado. Pessoas com boas noções de controladoria e finanças também são mais valorizadas, pois esse é um momento de controle de custos em todos os níveis da empresa. Todos os profissionais que puderem representar um diferencial de mercado serão mais valorizados pelas empresas. A preocupação das empresas com custos, problemas legais e carga tributária levam a uma busca mais forte por profissionais das áreas jurídica e fiscal e tributária.

DANIEL WAINSTEIN/AG. ISTOÉ

DINHEIRO - E do ponto de vista pessoal, quais os atributos que contam neste momento de crise?
VALENTE - No aspecto pessoal, leva vantagem quem demonstra elevada resistência a frustrações. O profissional ideal, hoje, é aquele que tem uma atitude positiva no dia a dia. Acima de tudo, as empresas buscam uma pessoa que seja versátil, que possa ser usada em diferentes funções e áreas dentro da organização. Hoje a adaptabilidade é uma das características pessoais mais procuradas pelas companhias. Quem tem um perfil menos maleável é que sofre mais em momentos de crise como o atual.

DINHEIRO - Quais as mudanças que a crise impôs ao processo de seleção das empresas? Ele ficou mais longo, difícil?
VALENTE - A crise realmente também afeta o processo de tomada de decisão das empresas e esse impacto está relacionado a uma série de fatores. Um deles é o próprio compasso de espera do mercado brasileiro, que busca saber ainda o tamanho e a profundidade da crise. Outro fator, principalmente no caso das multinacionais, é a situação da matriz estrangeira. Uma empresa europeia ou americana, por exemplo, pode ter uma operação caminhando muito bem no Brasil - ou talvez com um pequeno impacto -, mas em dificuldade no Exterior. Isso influencia na decisão sobre contratações, pois são obrigadas a seguir orientações que vêm de fora. O processo de escolha das companhias também ficou mais rígido. Elas querem ter a certeza de que escolheram o executivo mais apto para a vaga que têm. A margem para a escolha do executivo, portanto, fica muito menor. Isso tudo porque sai na frente, nesse momento, a companhia que contrata a pessoa certa para o cargo certo.

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