Dá para guardar esse segredo? Suíça, maior paraíso fiscal do mundo, pode estar com os dias contados. E isso afeta milhares de brasileiros, que escondem US$ 70 bilhões nas montanhas geladas dos Alpes
Por Leonardo Attuch
O OLHAR PLÁCIDO DE um são bernardo, cão tipicamente suíço, já revela sua personalidade. Dócil, leal e vigilante, ele parece incapaz de trair seu dono. Com essas características, a raça conquistou os Alpes suíços e os primeiros registros dos animais vêm de 1707. Mais ou menos na mesma época, uma outra tradição helvética começou a ganhar corpo: a do segredo bancário.
Para proteger as fortunas de antigos senhores feudais, os primeiros banqueiros de Genebra e Zurique começaram a guardar o ouro em autênticas fortalezas escondidas nas montanhas. Com o passar dos anos, os suíços foram aperfeiçoando sua tecnologia de proteção financeira. Criaram as contas numeradas, aquelas em que os nomes dos titulares jamais aparecem, e tornaram indevassáveis, com garantia em lei, as identidades de seus clientes. Com tamanho rigor, criaram um sistema financeiro monumental. Num território minúsculo, guardam depósitos que equivalem a três vezes o PIB do Brasil. Essa construção, que parecia sólida e eterna, começou a ruir. Derrete como se estivesse alicerçada sobre a neve das montanhas, num calor de 40 graus. A avalanche começou há poucos dias quando o UBS, maior banco suíço, fez um acordo com a Justiça dos Estados Unidos, admitindo revelar o nome de 250 clientes que teriam sido ajudados pelo banco a evadir recursos e a sonegar impostos. Na prática, foi como se o são bernardo traísse a sua natureza.
Anistiar ou não?
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O combate à evasão e à lavagem de dinheiro no Brasil ganhou força quando o juiz paranaense Sérgio Moro (de óculos) conduziu as primeiras prisões do caso Banestado, revelando a existência de mais de US$ 30 bilhões em depósitos sem origem. No Congresso, o senador Delcídio Amaral (centro) tem um projeto para anistiar aqueles que decidirem repatriar recursos para o País. Ele defende a tese de que muitos só protegeram seu patrimônio numa época em que o Brasil não tinha uma moeda digna. Mas enfrenta a resistência de técnicos do governo, como Antônio Gustavo Rodrigues (na ponta), do Coaf. |
Essa decisão só ocorreu porque a economia global mergulhou em tempos estranhos e anormais. Duramente abatido pela crise internacional, que já consumiu mais de US$ 20 bilhões dos seus resultados, o UBS se viu diante de uma encruzilhada: se não fizesse um acordo com o governo americano, que envolveu ainda uma multa de US$ 780 milhões, poderia ficar impossibilitado de operar nos Estados Unidos. Entre a preservação do negócio e a tradição, ficou com a primeira alternativa. Mas a escolha talvez tenha sido precipitada – ao menos para os interesses econômicos da Suíça. Na quarta-feira 25, o presidente do UBS, Marcel Rohner, foi sumariamente demitido. Ele, que resistiu às perdas bilionárias nos balanços, não sobreviveu à quebra da relação de confiança com os clientes. E se os bancos helvéticos já tinham perdido US$ 756 bilhões em depósitos desde o início da crise – na maior parte em saques feitos por correntistas estrangeiros –, a tendência deve se acelerar a partir de agora. “A decisão foi histórica”, comemorou Daniel Lebègue, chefe da seção francesa da Transparência Internacional. “O fato de um banco suíço, número um mundial em gestão de fortunas, ter se rendido, marca uma virada em relação ao combate aos paraísos fiscais.”
É exatamente assim, como um fator de ruptura, que esse caso começou a ser tratado nos quatro cantos do mundo. Nos Estados Unidos, as autoridades agora querem 52 mil nomes. Na Europa, os governos de Angela Merkel, na Alemanha, e Nicolas Sarkozy, na França, pressionam a Suíça a se adaptar às regras financeiras da União Europeia. E a onda também deve chegar ao Brasil. “É um precedente muito importante, que pode acelerar de vez o combate à lavagem de dinheiro no País”, disse à DINHEIRO o juiz federal Sérgio Moro, do Paraná. Foi ele quem esteve à frente do caso Banestado, que revelou a existência de mais de US$ 30 bilhões em recursos não declarados por brasileiros no Exterior. A partir daí, vários doleiros começaram a ser presos e interrogados, levando até à descoberta de alguns nomes de clientes em processos de delação premiada. Depois do caso Banestado, alguns banqueiros suíços, ligados a instituições como UBS, Crédit Suisse e Clariden, foram presos no Brasil nas operações Kaspar I e Kaspar II, da Polícia Federal. Eram acusados de ajudar clientes brasileiros a evadir e a sonegar recursos – o que ficou mais tempo na cadeia foi Luc Marc Depensaz, gerente do UBS, detido por três meses no Brasil. Estimativas não oficiais dão conta de que brasileiros manteriam cerca de US$ 70 bilhões em paraísos fiscais como a Suíça.
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