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O teste dos bancos estressados
Já na UTI, gigantes americanos serão submetidos a um rigoroso check-up pelo governo. E podem não resistir

MILTON GAMEZ

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OS BANCOS DOS ESTADOS UNIDOS estão doentes. Os ativos tóxicos relacionados ao crédito imobiliário a clientes de alto risco contaminaram seus balanços de uma tal maneira que o governo de Barack Obama prevê um socorro adicional de US$ 2 trilhões para salvá-los do completo colapso nervoso. Essa injeção representa quase quatro vezes o orçamento militar do país e 15 vezes o custo estimado com as operações de guerra no Iraque e no Afeganistão neste ano. Desde o ano passado, 38 bancos foram liquidados em vários Estados americanos. Os últimos gigantes de Wall Street estão na UTI: Bank of America, Citigroup, JP Morgan Chase e Wells Fargo já receberam infusões de US$ 140 bilhões. De quem? De Washington, já que o setor privado se recusa a colocar mais dinheiro nos bancos - a exceção que confirma a regra é Warren Buffett, que investiu US$ 5 bilhões no Goldman Sachs em plena crise. A novidade é que, agora, os médicos financistas da Casa Branca vão exigir que os bancos façam um teste de estresse antes de estender novamente a cartola.

Testes de estresse são comuns no mundo das finanças. Consistem em simulações numéricas sobre os efeitos que cenários de crise e alta volatilidade teriam sobre as operações de uma determinada empresa. Imagine se a atividade econômica cair abruptamente, a taxa de câmbio disparar, a inflação subir, os preços dos imóveis desabar e a inadimplência explodir. Qual seria o impacto disso tudo na saúde financeira dos bancos? Prejuízo na certa. O secretário do Tesouro Timothy Geithner irá aplicar testes de estresse nas maiores instituições financeiras para medir a resistência delas em um cenário ainda pior que o atual. Sim, tudo pode piorar antes de melhorar.

O eletrocardiograma do subprime irá rodar com as seguintes premissas: queda do PIB de 3,3% em 2009 e estabilidade em 2010; queda de 22% nos preços dos imóveis este ano; crescimento da taxa de desemprego para 8,9% em 2009 e 10,3% em 2010. O cenário poderia ser ainda mais grave. Há quem diga que essas condições são até amenas demais. "Essas premissas não são suficientemente duras", afirmou David Hendler, analista da Credit- Sights, ao jornal The New York Times. Para Hendler, elas embutem um otimismo sobre os efeitos do pacote de estímulo econômico de Obama. "Seria um resultado agradável, mas deveríamos nos preparar para o pior", propõe. Ele tem razão. Se tivessem feito o teste de estresse corretamente, com os piores cenários, as brasileiras Sadia, Aracruz Celulose e VCP não teriam se surpreendido com os prejuízos gigantescos com derivativos de câmbio no final do ano passado, quando o dólar saiu de R$ 1,70 e rompeu a improvável barreira dos R$ 2,30.

Os 19 bancos americanos com ativos superiores a US$ 100 bilhões terão de se submeter aos testes de estresse até o final de abril. Quem for reprovado terá seis meses para buscar reforço de capital junto ao setor privado e, caso não consiga, receberá os dólares do governo. Como não existe almoço grátis no mundo das finanças, os bancos terão de ceder ações preferenciais que poderão ser convertidas em ordinárias (com direito a voto). Ou seja, o governo do país mais capitalista do mundo poderá até nacionalizar temporariamente seus maiores bancos, medida defendida pelo Nobel de Economia Paul Krugman e pelo ex-presidente do Federal Reserve Board (banco central) Alan Greenspan. Seu sucessor, Ben Bernanke, afirmou na quarta-feira 25, em depoimento no Congresso, que não se trata de uma estatização, palavra proibida no vocabulário econômico americano. "Pode acontecer de o governo vir a deter uma participação minoritária substancial no Citi e em outros bancos", admitiu Bernanke. "Nacionalização é quando o governo toma o controle dos bancos, zera a posição dos acionistas e começa a administrar o banco. E nós não pretendemos fazer nada parecido com isso."

Na quinta-feira 26, a expectativa era de que o governo ficasse com 40% do Citibank. "O banco que nunca dorme" (um slogan antigo que cai como uma luva nesses dias estressantes) precisa desesperadamente de um sinal de confiança. No Brasil, o Citi irá se desfazer de ativos, como a Redecard, para fazer caixa (leia nota na coluna DINHEIRO EM AÇÃO, na pág. 85). Outra hipótese é a venda do controle do mexicano Banamex, comprado por US$ 12 bilhões em 2001. Um dos potenciais compradores seria o Itaú-Unibanco. Seu presidente, Roberto Setubal, não nega que esteja analisando o negócio, mas também não confirma que esteja interessado. "Não vamos comprar nada barato, porque tudo que é barato é ruim", afirmou na quarta-feira 25. "Procuramos apenas empresas sólidas que tragam valor para o Itaú", insistiu. É bom acreditar - ao contrário dos americanos, Setubal não está nem um pouco estressado.

Colaborou Amauri Segalla

 

 


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