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A vitória da autoajuda
Por Márcio Kroehn

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AP
O diretor britânico Danny Boyle, de Quem Quer Ser Um Milionário?: filme é o sonho que os americanos querem ver se transformar em realidade

A indústria do cinema americano terceirizou suas produções. O azarão Quem Quer Ser Um Milionário?, a modesta obra de US$ 10 milhões filmada em Mumbai, na Índia, superou os americaníssimos Frost/Nixon, Milk e O Curioso Caso de Benjamin Button e o germano-americano O Leitor para ficar com a estatueta mais importante na festa da 81a edição do Oscar. Para os críticos de plantão, venceu o favorito, embora caiba uma consideração. O ganhador foi o único entre os cinco concorrentes que serviu de alimento à esperança de dias melhores para aqueles que estão mergulhados na crise financeira em contínua putrefação. Aliás, o filme do britânico Danny Boyle consegue, em uma cena, ilustrar esse mergulho fétido, dando a entender que é possível cair no atoleiro de excrementos, levantar com dignidade e seguir em frente. O importante é que o conteúdo do longa se transforma em uma valorosa obra de autoajuda para os EUA e os homens do mercado financeiro ganharem força para superar a recessão.

É curioso perceber que, entre todas as tentativas de recuperar o orgulho ferido do americano de classe média, Hollywood aplaudiu sua versão mambembe, a Bollywood. Seria falta de opção melhor se render ao trabalho da irmã siamesa indiana? Há quem acredite que sim. Deixando de lado a qualidade das produções, os filmes com selo americano poderiam desencadear discussões pouco relevantes para os interesses pátrios neste momento. Por exemplo, mais que debates sobre a homofobia, Milk mostra a permanente contestação contra o status quo. O Leitor apresenta uma outra visão sobre os julgamentos pós-holocausto, modificando aquelas verdades que achamos absolutas. Ambos dariam ideias muito extravagantes para uma população que precisa se preocupar com a nacionalização do seu sistema financeiro e com o futuro de suas aposentadorias. Contestar e julgar, agora, são temas delicados. O melhor é apoiar o que vem sendo feito. E, para se divertir, basta se render à história de dois irmãos que seguem caminhos opostos e pagam o seu preço por isso, com um enredo sem grandes novidades: aquele que se entrega ao dinheiro fácil e ao crime é punido, enquanto o que se mantém firme nos seus propósitos e preserva a pureza do amor juvenil acaba com o reconhecimento de um prêmio inesperado.

Com a crise econômica mantendo a sina de não ceder nem com a eleição de Barack Obama, talvez Hollywood comece a repensar o seu modelo de rentabilidade. O Curioso Caso de Benjamin Button, que concorreu a 13 estatuetas e levou apenas três, custou US$ 150 milhões aos cofres da sua produtora. Com 6,5% desse orçamento e oito Oscars, Quem Quer Ser Um Milionário? já multiplicou por dez o seu faturamento. E a indústria do cinema não passará vergonha nem aperto. Em matéria de terceirização, os americanos são craques. Em prol do lucro, quanto mais barata a mão de obra, melhor. É assim com as roupas das grandes e cobiçadas marcas, produzidas em território chinês - nenhuma loja de Manhattan esconde essas etiquetas. E a Índia já é velha conhecida. Mais de um quinto das 500 Empresas da Fortune baseia suas áreas de pesquisa e desenvolvimento em solo indiano. Sem contar que as mágoas do endividamento americano são despejadas nos ouvidos dos indianos. Chiadeiras contra bancos ou cartões de crédito são respondidas por indianos. A terceirização do atendimento é um importante campo de trabalho para a população de 1,15 bilhão de indianos e possibilita uma economia de cerca de 40% para as companhias estrangeiras.

Se Hollywood desistir de mudar de endereço, pode aproveitar o sugestivo título original do vencedor do Oscar. Slumdog Millionaire (Vira-Lata Milionário) não deixa dúvida de quem são eles no set da economia americana. Os gordos gatos de Wall Street podem estar à beira da prisão e do colapso, mas não deixam de equipar seus escritórios com "modestas" cestas de lixo de US$ 14 mil, como fez o Lehman Brothers. Ao mesmo tempo que marejam os olhos, estendem a mão e pedem o dinheiro caridoso para o Tesouro Americano.

 


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