Francisco Valim, presidente da Serasa Experian
"No Brasil, o justo paga pelo pecador " POR HUGO CILO

Quando assumiu a presidência da Serasa Experian, em janeiro do ano passado, Francisco Valim, ex-mandachuva da Net Serviços, provavelmente pensou que teria uma vida mais tranquila. Pois ele não contava que, meses depois, uma crise de crédito varreria as principais economias do mundo e viraria do avesso o sistema financeiro mundial. O receio dele poderia ser menor se a empresa que hoje está sob suas mãos não estivesse diretamente envolvida com análise de crédito e riscos. Mas ele ganhou um aliado nessa difícil tarefa. Um novo modelo que já existe em grande parte do mundo, chamado aqui de cadastro positivo, começa a entrar em vigor em alguns setores da economia e tem sido apontado como um importante instrumento para a redução das taxas de juros. "No País, socializamos a inadimplência. O spread é alto porque o calote também é", afirmou Valim em entrevista à DINHEIRO.
DINHEIRO - Brasil tem resistido à crise graças ao severo modelo de concessão de crédito. Os critérios ficarão ainda mais rígidos após a crise?
FRANCISCO VALIM - Não necessariamente. Temos desenvolvido novos modelos de avaliação de risco, fator que pode melhorar os sistemas de concessão. Claro que, assim que a crise surgiu, as condições de financiamentos ficaram mais restritas, as taxas de juros mais altas, as condições menos favoráveis em termos de prazos e pagamentos à vista e, por fim, a análise de crédito ficou mais severa. Porém, isso deve se normalizar.

DINHEIRO - Em termos de crédito, o susto já passou?
VALIM - O Brasil vive hoje uma situação muito peculiar. Não existe nenhuma razão intrínseca para ter uma crise. O País destina muito de sua produção ao consumo local. Obviamente algumas áreas de exportação foram impactadas negativamente por conta da variação cambial. Mas essa crise surgiu da ausência de liquidez que ocorreu no final do mês de setembro, começo de outubro, e que se prolongou por algum tempo. Ou seja, vamos ver algumas dificuldades e ajustes. O crescimento vai ser menor. No entanto, não implica nem de longe recessão, diminuição severa dos empregos. Se esse processo de liquidez retoma sua normalidade e a incerteza em relação aos rumos da economia é bastante mitigada, a crise pode realmente passar de forma realmente bastante tranquila.
DINHEIRO - Mas muitos setores foram fortemente penalizados.
VALIM - Apenas setores específicos, como a indústria e o segmento de siderurgia. O setor de automóveis, por exemplo, tendo no mercado interno o principal fator, deve se recuperar de forma rápida.
DINHEIRO - Quando isso começará a acontecer?
VALIM - O que tem se visto é que houve uma redução importante da concessão de crédito entre outubro e novembro. Porém, já houve um crescimento em dezembro. Entendemos que deve voltar a crescer gradativamente neste início de ano. No entanto, uma coisa importante que precisamos destacar é que o volume total de crédito no Brasil não declinou, apenas o volume de novas concessões declinou.
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DINHEIRO - Uma ideia defendida pelo mercado para justificar que o País está passando bem por essa crise é que o volume de crédito ainda é muito pequeno. Concorda?
VALIM - Essa é uma tese que também advogamos. Achamos que o volume de crédito no Brasil, para a maioria das modalidades, ainda é muito baixo. E tem um item em particular que no Brasil é muito pequeno, que é o financiamento imobiliário, enquanto em muitos outros países é a principal fonte de geração de crédito. Isso mostra que existe um espaço gigantesco para crescer. O mesmo acontece na linha do automóvel, que representa 3% do total do PIB. Nos Estados Unidos representa 95%, no Chile 6%. Ou seja, mesmo em automóvel, tem muito espaço para crescer. O conceito de compra à vista em automóvel nas sociedades onde o crédito é mais disponível basicamente não existe.
DINHEIRO - E nas outras linhas de financiamento?
VALIM - Uma linha que talvez esteja chegando perto da saturação é o crédito direto ao consumidor, o CDC. Essa modalidade vai para o consumo, que de certa forma complementa em muito a economia informal. Isso tem disfarçado um capital de giro na economia informal. Então, também há muito espaço para crescer no Brasil. Mas o crédito imobiliário vence. Aqui, representa 1% do PIB. Nos Estados Unidos está entre 80% e 90%.
DINHEIRO - O CDC chegou ao limite?
VALIM - Não, também pode crescer. Digo no sentido de que nosso CDC está mais perto do que se encontra no resto do mundo. Cerca de 9% do nosso PIB é crédito direto ao consumidor.
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