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Reforma bancária já
Por Ricardo Gallo*

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É fundamental mudar o setor. Caso contrário, ficaremos presos a um sistema que eleva juros, enquanto o Banco Central baixa

Quem diria: os gigantes do sistema financeiro global estão de joelhos. Do céu ao inferno em meses! A reação dramática das autoridades econômicas globais tem um objetivo: evitar que se repita a depressão de 1929. Não há consenso sobre a principal causa da derrocada do sistema. Uns apontam o excesso de poupança dos países asiáticos, que, por razões culturais e um câmbio desvalorizado, produz enormes superávits e reservas cambiais. Este excesso de poupança derrubou as taxas de juros globais e induziu ao aumento do endividamento nos países anglo-saxões, ávidos por expandir o consumo. A globalização gerou um efeito deflacionário que permitiu aos bancos centrais praticar taxas de juros muito baixas por muito tempo, estimulando a oferta de crédito. Outros culpam a falta de regulação dos governos nos mercados de crédito e de capitais, pois o sistema operava descapitalizado, com dívida substituindo capital.

Há os que acreditam em desvios comportamentais estimulados pelas práticas de remuneração e de governança cujo lema era "tudo por dinheiro, pois o dinheiro é dos outros". Some-se a isto a competição predatória entre bancos e agentes não regulados, como fundos de hedge e seguradoras, e o resultado foi a queda generalizada das taxas de risco e a formação de uma enorme bolha de crédito. Até que ela estourou. O que parecia uma crise imobiliária agora atinge todo tipo de crédito. E já se fala em reforma estrutural do sistema, com algumas tendências claras:

-Os grandes bancos captadores de depósitos se transformarão em empresas de utilities (como são as concessionárias de telefonia e energia), com menor alavancagem.

- O mercado de capitais será mais regulado e as agências de rating serão remuneradas pelos investidores e não mais por bancos ou devedores.

- Derivativos de balcão irão migrar para centrais de compensação e negociação, nos moldes da BM&F. - Os fundos de hedge terão menores volumes e alavancagem. Parte da remuneração dos gestores será diferida pelo prazo dos investimentos feitos e será exigida uma transparência muito maior.

-Bancos de investimento, seguradoras, gestores de fundos e bancos comerciais terão de se separar.

- O mercado de securitização de ativos será regulado e controlado pelo governo, como são os bancos.
- Mecanismos de remuneração serão revistos.

E no Brasil? Nosso arcabouço regulatório é antiquado e conservador, o que amarra o processo de inovação financeira, mas também impede a competição predatória de agentes não regulados. E a prática do "tudo por dinheiro" é contrabalançada por um sistema de fiscalização que responsabiliza judicialmente os executivos por suas decisões. Além disso, o curto histórico de estabilidade econômica não deu aos agentes daqui o mesmo "conforto" experimentado pelos amigos do Norte. Como consequência, a bolha brasileira foi pequena. O lado ruim é a enorme concentração no setor. Hoje as seis maiores instituições têm em mãos 70% do sistema e controlam um montante de ativos de mais de 100% do PIB. Isso causa:

- Pouca competição.

Oferta de crédito e seu custo controlados por poucos.

- Concentração da gestão dos fundos de investimento e de pensão nestes mesmos agentes, tornando o mercado de capitais refém das instituições que controlam o crédito. - Subsídios oficiais implícitos, como a garantia de depósitos bancários, favorecem os bancos maiores. Sem acesso a depósitos de varejo garantidos pelo Estado, os menores ficam em desvantagem.

- Falta de liquidez nos mercados secundários de títulos.

- Subdesenvolvimento do mercado de securitização, comprometendo a redução do spread bancário.

É fundamental mudar já este quadro. Caso contrário, ficaremos presos a um sistema que eleva juros, enquanto o Banco Central baixa. Ou pior: se a saúde de alguns destes gigantes for afetada, teremos aqui os mesmos problemas de Mr. Obama. E lá como cá, já ficou claro: no final, a conta vai para os contribuintes.

Ricardo Gallo é sócio da Gallo Investimentos

 


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