Yeda Crusius, governadora do Rio Grande do Sul
"Não sou uma rainha em busca de um jato" POR ADRIANA NICACIO

A governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, passou os últimos dois anos reclusa no Palácio Piratini, num autoimposto anonimato. Em 2007, as finanças gaúchas se encontravam em um momento crítico. O Rio Grande do Sul era o único Estado que não tinha superávit. Agora, Yeda resolveu sair do isolamento e começou um périplo pelos Estados brasileiros comandados por tucanos. Ela quer conhecer outras realidades administrativas, especialmente em programas sociais. Mas, nessa nova fase, três notícias jogaram os holofotes na governadora, economista formada pela USP. Ela quer comprar um jato, decidiu desonerar os empresários e, de quebra, anunciou investimentos de R$ 2,3 bilhões. E de onde vem o dinheiro? "Ele não estava na árvore, nem caiu do céu por descuido." Segundo ela, em entrevista exclusiva à DINHEIRO, a compra do jato está em linha com a responsabilidade fiscal.
DINHEIRO - A sra. realmente está pensando em comprar um jato em meio a uma crise mundial?
YEDA CRUSIUS - Somos o mais setentrional dos Estados. Montei um grupo de trabalho para analisar isso. Por enquanto, o avião não existe, mas já lhe deram um nome. Eu tenho um King Air 320, que é um turboélice. Ele desce em pista de areia, é muito seguro, mas é um avião pequeno. Da última vez que nós pegamos um minuano voltando de Brasília demorei quatro horas e meia para chegar. Não tem banheiro. Mas deram o nome do avião, que não existe, de Queen Air.

DINHEIRO - Será o aero-Yeda?
YEDA - As autoridades do Estado merecem ter um jato. Não é o jato da governadora, daqui a pouco não estou mais aí. O jato fica. Se é um assunto polêmico, é um assunto polêmico. Não vou explicar essas coisas porque não faz sentido ficar dando corda para um fato que não existe.
DINHEIRO - Mas a sra. quer um jato?
YEDA - É possível que o King Air trocado por um jato me dê um troco. É um avião que se eu coloco à venda pode ser vendido por US$ 3,2 milhões e tem jato de US$ 3 milhões. É assim que eu vejo a separação entre a governadora- gestora que tem que responder por centavos do dinheiro público e aquela que é vista como governadora. Hoje no Brasil confundem o Executivo com a Corte. É impressionante isso. Não sou uma rainha que quer um avião.
DINHEIRO - O Rio Grande do Sul está preparado para a crise?
YEDA - Está. Não temos a quantidade de recursos que gostaríamos. Nós sabíamos que poderíamos ter a surpresa. Então, resolvemos fazer com que o nosso orçamento, que foi enviado em setembro de 2008 para a Assembleia, não tratasse de sonhos, fosse um orçamento realista. Previmos o déficit zero e investimento de 7% da receita líquida. Previ um crescimento de 2,5%, que era o que eu podia ver com recursos que a gente tinha para investir. Quando a crise veio, o orçamento estava aprovado e ele vai ser realizado. Não preciso fazer cortes.

DINHEIRO - O que representa 7%?
YEDA - R$ 2,3 bilhões entre administração direta e indireta.
DINHEIRO - Como a sra. vai conseguir investir R$ 2,3 bilhões?
YEDA - Vou mostrar em março, quando a contabilidade estiver pronta, que a arrecadação do ICMS cresceu 22% e, no total, a arrecadação subiu 16%. O orçamento do Estado cresceu pelos ganhos de gestão aplicados desde o primeiro dia. É uma experiência rica. São dezenas de ações ao mesmo tempo sem perder o foco do ajuste estrutural pelo gerenciamento de receita e despesa.
DINHEIRO - Como é feito esse gerenciamento?
YEDA - Temos um planejamento detalhadíssimo com todas as ações. Não há uma janela de despesa, não há uma janela de receita que não seja analisada por gestão por meio do programa de utilidade e produtividade. O primeiro ano foi ruim para tudo, inclusive arrecadação. Então, esses 22% devem-se muito mais ao segundo ano. Criamos a nota fiscal eletrônica, substituição tributária, um programa de acompanhamento do contribuinte, o PAC, em que nós celebramos acordos com o contribuinte. Quando uma coisa vai mal, a gente tem um indicador que faz o acompanhamento permanente do contribuinte. São 17 setores que estão sendo acompanhados em cada região do Estado.
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