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Começou a Virada
As histórias reais das empresas que estão passando por cima da crise neste início de 2009, com números positivos que surpreendem seus próprios presidentes

HUGO CILO

Foi com esse cenário que Wlademir Araújo, presidente da Relevo Araújo, gigante brasileira do setor de embalagens, decidiu adotar uma postura semelhante à do presidente da Mapfre. Ao receber o relatório da empresa em sua mesa, mandou acelerar os planos de aumento da produção. Não é para menos: em janeiro, a empresa contabilizou expansão de 15,4% nas vendas e de 26,2% no faturamento. "Cadê a crise? Quando vi os números, mandei colocar mais fogo na caldeira", disse o empresário. "Não podemos parar por medo. O susto já passou", acrescentou.

Evidentemente, nem as pesquisas nem os empresários têm a pretensão de maquiar os problemas reais com números positivos. No entanto, por trás das estatísticas e dos prognósticos pessimistas, inegavelmente existem empresas que ignoraram o cenário de turbulência e avançam a passos firmes. É o caso também da Renault. A montadora francesa vendeu no mercado brasileiro 14,7% mais carros no mês passado do que em janeiro de 2008, quando não havia nenhum sinal de crise. Em comparação a dezembro, as vendas subiram 13,5%, num claro sinal de que os efeitos da recessão passaram longe dos portões da fábrica paranaense da montadora, em Curitiba. "A Renault continua acreditando no grande potencial do mercado brasileiro", afirmou à DINHEIRO o presidente da Renault do Brasil, Jérôme Stoll, que está deixando o País para assumir um cargo de comando na França. E essa pujança não se limita a um ou dois setores da economia. "Mesmo com a crise financeira internacional, o crescimento do mercado de telefonia celular no Brasil continuará acima dos 10% ao ano", afirmou o presidente da Vivo, Roberto Lima.

A situação diferenciada do Brasil na crise - um caso raro na história econômica mundial - recebeu destaque em um relatório global do banco HBSC. O documento de 13 páginas afirma que o País irá avançar mais rápido do que se esperava, a exemplo da China, e que o desempenho de ambos os países está diretamente relacionado. O estudo mostra ainda que a posição confortável brasileira reflete um sistema bancário sólido e mercado interno consistente.

Pesquisas e relatórios à parte, o fato é que mesmo os segmentos que inicialmente foram castigados pela crise começam a dar sinais de fôlego. Além da indústria automotiva, que voltou a acelerar com a restauração do crédito, setores como o de vestuário e calçados reconhecem que o quadro não é tão ruim como se acreditava e já começam a recontratar funcionários demitidos meses atrás. "A expectativa é muito boa. Haverá a retomada da reposição dos estoques e retorno das contratações", disse o presidente do sindicato da indústria de confecção (Sindivestuário), Ronald Masijah. Esse horizonte positivo para o setor é sustentado principalmente pela evolução do salário mínimo e consolidação da classe C no mercado de consumo. Segundo um levantamento da FGV, a renda do brasileiro tem crescido a despeito da crise mundial - o número de pessoas de classe média que ganham de R$ 1.115 a R$ 4.807, subiu 3,7% no segundo semestre de 2008, e atingiu 53,8% da população pela primeira vez na história. É essa faixa da população que se destacou como a grande estrela do consumo interno do País e que, neste fim de semana, é tema de uma reportagem da revista britânica The Economist, que destaca o papel da nova classe média como amortecedor da crise.

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