O labirinto do Spread Governo quer reduzir a margem de ganho dos bancos para estimular a economia. Conseguirá?
ADRIANA NICACIO E MILTON GAMEZ

ENTRA ANO, SAI ANO, O BRASIL CONTINUA perdido no labirinto dos juros mais altos do mundo. Apesar da estabilização da economia e da promoção do País a nível seguro de investimento, as empresas e os consumidores continuam obrigados a pagar juros exorbitantes às instituições financeiras quando fazem empréstimos, como se vivessem em países desajustados ou em guerra civil. E de quem é a culpa? Dos clientes, dos bancos ou do governo? Esse debate veio à tona com a crise internacional, que enxugou o crédito mundial. A caça ao minotauro financeiro voltou com força. O vilão, segundo o governo, é o spread bancário (diferença entre a taxa de captação de recursos e o custo do repasse desse dinheiro aos clientes pelos bancos). O spread está para os bancos assim como a margem bruta, para as empresas.
O presidente Lula, na tentativa de estimular a economia, determinou à sua equipe econômica que encontre maneiras de reduzir o spread, forçando os bancos a repassar aos tomadores de recursos os benefícios da redução dos juros básicos pelo Banco Central. Na quinta-feira 5, o BC colocou um atalho em seu site na internet para facilitar o acesso do público a uma ferramenta de comparação entre as taxas cobradas nos empréstimos às pessoas físicas e jurídicas, que já existia. O Ministério da Fazenda, a quem o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal estão subordinados, está fazendo um estudo para encontrar a saída do labirinto. "O spread teve uma elevação expressiva ao longo de 2008 no Brasil e cresceu a partir de setembro, acompanhando a elevação do custo internacional", analisa o ministro da Fazenda, Guido Mantega. "Temos perfeitas condições para diminuir esse spread."
A guerra dos números está acirrada. O Banco Central diz que o spread médio chegou a 30,6 pontos percentuais em dezembro, ante 30,1 pontos em novembro e 22,3 pontos no final de 2007. Para a Febraban, que faz a conta de maneira diferente, incluindo os empréstimos direcionados (como os repasses do BNDES, o crédito agrícola e o habitacional), essa margem é menor: em torno de 22,5 pontos percentuais, em média (veja gráfico A alta do spread). O fato é que dá para cortar, insiste o governo. "Eu tenho certeza que dá para reduzir o que os bancos privados têm cobrado", insiste Mantega. Será?
O ministro repassou a bronca ao BB e à CEF para que puxem a redução das taxas de juros, mas ele sabe que a questão é difícil e não será resolvida na base do grito. "Se fosse simples baixar o spread, os bancos oficiais já teriam feito isso há bastante tempo", afirmou o presidente do Bradesco, Márcio Cypriano, na segunda-feira 2. Segundo a Febraban, os bancos ficam com menos de um terço do spread para si. O resto vai para o pagamento de impostos, custos administrativos e para cobrir os calotes dos clientes (veja gráfico Raio X do spread). A inadimplência consome 37% do spread e, com a crise, é a principal justificativa para os bancos manterem margens brutas elevadas. Se novos calotes estão a caminho, eles não podem baixar os juros e abrir as torneiras do crédito, pois isso aumentaria o risco, argumentam. Por isso, as taxas dos empréstimos caem em menor velocidade que o juro básico, explica Rubens Sardenberg, economista-chefe da Febraban. "Em cenário de incerteza, os bancos têm de ser mais cautelosos", diz ele. Por outro lado, os juros elevados também causam inadimplência, pois os empréstimos ficam impagáveis.
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Sardenberg, economista da Febraban: "Em cenário de incerteza, os bancos têm de ser mais cautelosos" |
Será preciso mais pressão do governo e boa vontade dos bancos, oficiais e privados, para resolver a questão. Esperar pela redução das taxas a partir da queda na demanda não basta, pois o mercado é desequilibrado. A demanda por crédito é muito mais alta que a oferta. Embora o sistema financeiro tenha registrado o recorde de crédito de 41,3% do PIB em 2008, num total de R$ 1,3 trilhão, esse percentual ainda é pequeno. Na Malásia, na Coreia do Sul e no Chile, as relações são de 130%, 110% e 60%, respectivamente. "Como os volumes de crédito são baixos, as margens têm de ser mais altas. A estrutura dos bancos consome o spread", afirma o economista Alberto Borges Matias, professor da USP.
Uma medida que poderia baratear o custo dos empréstimos para os bons clientes é o cadastro positivo do crédito. Mas o projeto que cria o cadastro está perdido há anos em outro labirinto: o Congresso Nacional.

Colaborou Márcio Kroehn |