Anuncie
Assine Três
 
  IstoÉ Dinheiro
 
Artigo
Imprimir
 
A cruz do spread
Por Luiz Fernando Sá

comente a matéria

O sistema financeiro brasileiro vive um inédito momento de reconhecimento internacional. Os principais bancos do País mostraram-se sólidos e imunes ao contágio global que atingiu ícones das finanças mundo afora e os sistemas de controle e fiscalização adotados por nossas autoridades monetárias e de mercado são citados como contraponto eficaz ao excesso de liberdade que acabou gerando monstros como o rombo do subprime americano e as quebras espetaculares dos fundos de hedge. Até o outrora malfadado Proer - o programa que consumiu bilhões no saneamento do sistema nos anos 1990 -, quem diria, aparece hoje como inspiração para a equipe do presidente Barack Obama em um eventual plano de socorro aos bancos americanos. Mas e aqui dentro, que imagem têm as instituições nacionais e seus gestores? O que o brasileiro comum pensa daqueles que guardam seu dinheiro, lhe oferecem os mais variados serviços financeiros e, em caso de necessidade, lhe fornecem crédito? Não é fácil imaginar que seja tão positiva.

ROBERTO CASTRO/AG. ISTOÉ

Sim, os bancos brasileiros são modernos. Sim, são sólidos e eficientes. Sim, seguem, em sua imensa maioria, as melhores cartilhas de governança e seus controles internos e externos estão entre os mais rigorosos do mundo. Sim, em termos de tecnologia, estão quilômetros de distância à frente de instituições americanas e europeias. Sim, suas políticas de responsabilidade social e ambiental, bastante divulgadas, recebem investimentos generosos e exibem resultados alvissareiros. Sobre tudo isso, porém, paira uma névoa, que macula constantemente seus esplêndidos balanços e lança-os a discussões que deveriam ter ficado no passado mas permanecem atuais. Os invariavelmente altos juros praticados pelos bancos ao emprestarem dinheiro que captam por taxas bem mais modestas acabam eclipsando a competência e reforçando o senso comum de que lucro de banqueiro é coisa fácil. Ou até pecado, como se pregava séculos atrás.

O spread bancário, assim, transforma-se numa cruz para todos. Hoje na casa dos 30,5 pontos percentuais (o maior em cinco anos), em média, ele esmaga o tomador de crédito, que muitas vezes não entende por que paga tanto por um empréstimo mesmo quando as taxas oficiais de juros caem. Ele sufoca a economia, por afastar consumidores e empresários do mercado e inibir investimentos. E compromete até mesmo a eficiência das operações bancárias, já que a mesma visão do ganho fácil contamina as equipes das instituições e não as incentiva a buscar novas e melhores soluções para os negócios. Os bancos brasileiros são campeões mundiais de spread - e isso, no longo prazo, pode não lhes fazer bem.

Boa parte dos aspectos positivos do sistema financeiro brasileiro foi conquistada graças à habilidade dos banqueiros de se adaptar ao ambiente em que operam, ainda que hostil à maioria dos negócios. Dos tempos da inflação descontrolada, por exemplo, eles trazem a vocação de inovação tecnológica, ferramenta fundamental para minimizar os efeitos da rápida corrosão do dinheiro. Depois, as seguidas crises financeiras - que fizeram vítimas no setor - propiciaram a melhoria dos controles de riscos, internos e sistêmicos. A solidez foi resultado da recente fase de estabilidade e crescimento do País, quando imperou a lucrativa combinação de demanda por crédito e spreads altos.

O momento atual abre uma nova perspectiva para os bancos: a de virar definitivamente a página em que aparecem relacionados à usura e à ganância. Embora afirmem que as taxas continuam altas em função do aumento da inadimplência, é certo que, com os mecanismos de controle de risco disponíveis, eles têm condições de reduzir seus juros e oferecer o crédito necessário a preço justo para manter a economia em um ritmo forte. É o papel que se espera de banqueiros comprometidos com o desenvolvimento do País, sem que para isso seja necessário comprometer os ganhos de seus acionistas.

 

 


Edição Digital
Boletim
Gratuitamente,
receba as últimas
notícias e conteúdo
exclusivo do site.


Artigo
Imprimir
   

Busca:
Sites Editora Três

Seções
Capa | Dinheiro Investidor | Dinheiro na Semana | E-commerce | Economia | Entrevista | Estilo | Finanças | Horóscopo | Negócios | Reportagens | Especial | Artigo
Serviços
Fale Conosco | ISTOÉ Dinheiro Digital | Expediente | Anuncie | Assine
Revistas TRÊS
IstoÉ | IstoÉ Dinheiro | IstoÉ Gente | Motorshow | Planeta | Dinheiro Rural | Go Outside | Menu

Gerenciamento de Conteúdo / CMS - ContentStuff.com