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Lula no fórum errado
Em vez de apresentar um Brasil resistente à crise em Davos, ele preferiu participar de um encontro em Belém com seus vizinhos problemáticos

GUSTAVO GANTOIS

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FABIO RODRIGUES POZZEBOM/ABR
A VOZ DA ESQUERDA participantes do fórum protestaram contra a crise

ERA A CHANCE CERTA para apresentar um Brasil que inda resiste aos efeitos mais fortes da crise que devastou as economias tradicionais. Era, também, o melhor momento para estar presente às discussões que poderão redefinir um modelo econômico para os próximos anos. Mas o presidente Lula resolveu trocar tudo isso - e a neve típica da cidade suíça de Davos - para enfrentar a forte chuva, o calor de 40 graus e os fiéis seguidores dos popularescos Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa e Fernando Lugo que se reuniram em Belém, no Pará, para o Fórum Social Mundial. Mesmo tendo sido preterido por movimentos sociais como o MST, que vetou sua participação em um dos eventos, Lula soltou a verve esquerdista em um fórum que pedia tal atitude. Em sua fala, o presidente fez crítica ao capitalismo e desancou o Consenso de Washington. "Se outro mundo era possível, hoje é necessário", disse Lula, fazendo referência ao slogan do Fórum Social Mundial. Dando vazão ao discurso dos presidentes convidados, Lula ainda teceu um retrospecto da ascensão das forças de esquerda na América Latina e como elas promoveram mudanças em seus respectivos países que culminaram na situação atual que se encontram, segundo o presidente, fora do espectro maléfico da crise. Nesse ponto, esqueceu de mencionar a inflação na Venezuela, a falta de investimentos externos na Bolívia e no Equador e a insegurança jurídica de todos eles juntos.

BOA VIZINHANÇA: Lula fez elogios aos países sul-americanos e omitiu os problemas econômicos

Mas se pela primeira vez os temas discutidos nos dois fóruns se assemelham, por outro lado a essência do Fórum Social Mundial continua latente. Bernard Cassen, um dos fundadores do encontro, sugeriu que os bancos públicos passem a investir apenas em empresas não-especuladoras que os governos deixem de importar produtos de países que usam mão-deobra de presos políticos, como a China. O pensamento é compartilhado por Oded Grajew, também idealizador do evento e ex-integrante do governo Lula. "Diziam que os recursos eram limitados. Agora na crise, de repente, apareceram trilhões de dólares para socorrer empresas", argumenta Grajew. As críticas encontraram respaldo no discurso de Lula, que associou a crise atual à alimentar e à ambiental. "Se pelo conceito dos antigos formuladores econômicos o Estado era mínimo, hoje ele é salvador", disse. Mas talvez nada disso tenha sido tão simbólico como a recusa dos sem-terra em compartilhar com Lula o mesmo palco. "Não consideramos o governo afinado com o fórum e por isso o excluímos", disse Ulisses Manacá, da direção nacional do MST. Talvez esse ataque tenha custado mais ao presidente Lula do que as piadas de Chávez ou a crise internacional. E isso porque o governo cedeu R$ 850 mil para a organização do fórum.

 


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