Abram Szajman, presidente do Sebrae-SP e da Fecome
"Não há nenhum motivo para pânico" POR HUGO CILO

No início da semana, a Fiesp anunciou que 130 mil vagas foram extintas na indústria paulista em dezembro, um sinal de que a crise havia chegado à economia real. Em poucas horas, a notícia espalhou preocupação entre entidades empresariais, sindicatos e governo. Mas havia uma exceção: o empresário Abram Szajman, homem forte da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP) e recém-eleito presidente do Sebrae-SP. "Calma. Os cortes são pontuais, não refletem a realidade do País", disse ele à DINHEIRO. Szajman garantiu que não há razões para acreditar em uma contaminação geral da economia, principalmente nos setores de comércio e serviços, que respondem por 65% dos empregos. Leia a seguir sua entrevista.
DINHEIRO - Existe um cálculo, consenso entre especialistas em emprego, de que para cada vaga fechada na indústria outras sete são extintas na economia, por consequência. Essa proporção é real?
ABRAM SZAJMAN - Não acredito. Se essa fórmula tivesse fundamento, nós já teríamos percebido uma contaminação generalizada na economia. Isso não aconteceu ainda. Tenho visto que as demissões estão muito concentradas. São números pequenos dentro de um universo muito mais amplo. Se tomarmos como base a indústria automotiva, uma das mais afetadas pela conjuntura internacional adversa, os cortes significam uma parcela minúscula do total de trabalhadores. Se uma montadora com 10 mil funcionários dispensa 300 pessoas, não é motivo de pânico.
 |
Henrique Meirelles, presidente do Banco Central |
"O governo ainda deve pressionar mais o Banco Central a reduzir os juros" |
DINHEIRO - No comércio ou nas micro e pequenas empresas, setores que o sr. representa, as demissões não começaram?
SZAJMAN - No comércio, não. Nem nas micro, nem nas pequenas, nem nas médias empresas de varejo. Nos serviços, também não tenho notícias, não tenho informações de desemprego. Acontece que as pessoas continuam indo ao supermercado, comprando alimentos, produtos para casa, material de construção... Enfim, ninguém deixou de comprar.
DINHEIRO - Mas as vendas do comércio não estão bem.
SZAJMAN - Não estão bem nem mal. Estão como no ano passado. Não podemos imaginar que as vendas continuariam crescendo como estavam antes da crise. Seria ilusão. Apenas alguns segmentos de bens duráveis, como veículos, eletrônicos de alto valor e linha branca (geladeira, fogão), sentiram os efeitos da falta de crédito e do receio dos consumidores quanto ao emprego. Mesmo assim, sentiram muito pouco. Foi de leve.
DINHEIRO - E nas micro e pequenas empresas?
SZAJMAN - Não dá para você falar em desemprego em microempresa. Elas têm dois ou três funcionários, geralmente um negócio familiar. A crise tem menos influência. Esse tipo de negócio comercializa produtos de baixo valor unitário, que não dependem de linhas de financiamento. As pequenas empresas seguem a mesma lógica.
DINHEIRO - Sem crédito e diante de um cenário econômico mais complicado, existe o risco de aumento da mortalidade das micro e pequenas, que já é alto?
SZAJMAN - A mortalidade é realmente elevada, mas não tem nada a ver com crise internacional. Há muita falta de planejamento. Hoje, 23% das novas empresas fecham as portas no primeiro ano de vida. Outros 65% morrem com até cinco anos. A partir de agora, para evitar que a conjuntura piore essa estatística, será fundamental que os novos empreendedores definam melhor o que vão fazer. É necessário escolher com clareza para não errar. Nesse contexto, à frente do Sebrae-SP, tenho a obrigação de assessorar quem está disposto a abrir uma pequena empresa.
 |
DINHEIRO - Não há nada que seja uma ameaça às micro e pequenas?
SZAJMAN - Existem várias ameaças. O desemprego na indústria, se persistir, preocupa. Trabalhador sem emprego não compra. O governo não pode deixar alastrar esse problema. O importante é procurar uma forma de atender aos segmentos mais afetados, a qualquer custo. Procurar manter a empregabilidade, mesmo que isso seja negociado entre as partes, com a flexibilização de direitos. Não pode deixar haver uma contaminação psicológica. Isso é muito fácil de acontecer. Não se pode deixar o desemprego atingir níveis desproporcionais. Daí, complica.
DINHEIRO - O sr. é favorável a mudanças nas leis trabalhistas?
SZAJMAN - Sim. As leis trabalhistas no Brasil estão antiquadas. Ninguém quer tirar o direito do trabalhador, mas tem que ter mais flexibilidade. A própria Constituição de 1988 permite uma flexibilização de carga horária, banco de horas, salários, antecipação de férias, entre outros. Nesse contexto, as centrais sindicais estão mais realistas que os sindicados em relação à manutenção dos empregos. É preciso ficar claro que para preservar o emprego tem que preservar a empresa.
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >> |