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O problema de US$ 3,6 trilhões
Por Luciano Suassuna

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AP PHOTO/DIMA GAVRYSH
A forma de encaminhar a solução para a crise bancária americana definirá o governo Obama como genial ou apenas mediano

Numa conferência em Dubai no início da semana, Nouriel Roubini, o professor da Universidade de Nova York que antecipou a crise de crédito e a prolongada recessão mundial, disse que as perdas financeiras devem totalizar US$ 3,6 trilhões nos Estados Unidos, metade delas em bancos e agentes financeiros. "Isso significa que o sistema bancário americano está efetivamente insolvente", decretou o famoso sr. Apocalipse. Em 2008, quebraram 25 bancos no país e estima-se que outros 20 fechem as portas até março. Em valores de mercado, o Citigroup despencou de US$ 255 bilhões no segundo quadrimestre de 2007, antes da bolha imobiliária começar a vazar, para US$ 19 bilhões na terça-feira, 20 . "Os problemas do Citi, do Bank of America e outros sugerem que o sistema está em bancarrota", disse Roubini.

É esta crise bancária que está no centro de toda a reviravolta econômica - mas sobre ela Barack Obama nada indicou no discurso de posse. O secretário do Tesouro, Timothy Geithner, reconheceu não ter um plano pronto, mas prometeu entregar algo até três semanas. O que virá, ninguém sabe. Como toda crise embute sempre a nostalgia de bons tempos, os economistas debatem três alternativas históricas contra uma novidade:

1) A solução sueca - No início dos anos 1990, com a coroa afundando e o sistema bancário idem, a Suécia nacionalizou os bancos. Restabeleceu-se a confiança e expô-se o tamanho dos fundos sem garantia. Mas a Suécia é uma economia pequena perto da dos EUA e à época tinha um sistema bancário bem menos complexo. Deu certo lá, mas são muitas as dificuldades para que os EUA entrem por esse caminho. Ideologicamente seria um golpe na mais paradigmática economia de mercado do mundo. Seria quase impossível para o governo nomear e fiscalizar gestores estatais em cerca de sete mil bancos. A meia estatização, uma intervenção limitada às grandes instituições, poderia suscitar disputas legais, além de desequilibrar o sistema - já que os depositantes de bancos estatais teriam garantia plena enquanto os outros estariam sujeitos aos riscos de mercado.

2) A alternativa japonesa - Com o estouro da bolha imobiliária na década de 1980, o governo japonês passou a socorrer fortemente os bancos sobreviventes. Se Roubini estiver certo, essa brincadeira custaria agora US$ 1,8 trilhão apenas para resolver a crise dos bancos. O Tarp de Bush não torrou nem um terço disso. No Japão, os resultados foram catastróficos: longa crise de confiança, com muita poupança e pouco gasto dos consumidores, concentração do sistema (o Japão tem menos de 150 bancos), estagnação econômica por uma década, perda de competitividade. Além disso, não se obteve transparência dos reais prejuízos dos bancos nem do efetivo destino do dinheiro do contribuinte. No caso americano, o caminho seria ainda um prêmio a maus gestores.

3) O modelo brasileiro - A idéia de colocar os ativos tóxicos num banco podre parece a mais viável até agora. O bad bank, como é chamado, seria criado para dar transparência e recuperar a credibilidade do sistema. Todos os bancos teriam de informar o real tamanho dos prejuízos com derivativos, subprime e outras inovações financeiras. Seria uma espécie de Proer, como o adotado no Brasil após o Plano Real. Mas aqui havia títulos podres do governo, os FCVS, sem liquidez e que uma hora seriam resgatados pelo seu valor de face. Lá, a toxidade é privada e não se sabe quando haverá um mercado secundário para esses papéis. Algo já foi feito neste sentido nos anos 1980. Mas o buraco, na época, não tinha a magnitude de agora.

4) A novidade - A proposta mais ousada partiu do economista Robert Shiller, que pretende pulverizar, como se fossem uma espécie de ações, os derivativos ligados à casa própria, hoje na mão de grandes bancos. Não é um modelo pronto (recebe severas críticas sobre seu potencial especulativo), mas uma ideia a ser construída. No discurso, contudo, oferece algo mais compatível com um governo que se pretende inovador. Shiller não retrocede romanticamente, como se os novos instrumentos financeiros fossem por si só um mal. Mas pretende ampliá-los, democratizando-os.

Da solução desta crise sistêmica depende o futuro de Obama. É ela quem dirá se será um governo genial, mediano, eficiente ou fracassado. Talvez por isso tenha sido melhor não falar nada de objetivo no discurso de posse.

 


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