O risco das butiques financeiras Crise expõe o perigo de se investir em instituições com base em fatores emocionais, como a grife dos gestores
ADRIANA MATTOS

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LIQUIDAÇÃO: Fundos da Gávea, da Credit Suisse Hedging Griffo e da Mauá também sofreram com a piora das expectativas no ano passado |
A CRISE ATUAL DOS MERCADOS FINANCEIros tem pelo menos um lado bom: o aspecto educativo. Se for verdade que investidor escaldado tem medo de água fria, quem perdeu dinheiro com aplicações de alto risco irá pensar duas vezes antes de embarcar em outra bolha especulativa. Irá questionar os gestores antes de acreditar em falsas promessas de lucros incessantes. Irá comparar resultados de várias instituições antes de entregar seus recursos para uma delas. Como bem disse o megainvestidor americano Warren Buffett em agosto do ano passado, "você só sabe quem está nu quando a maré baixa". No Brasil, muitos gestores de recursos consagrados foram pegos, digamos, de calças curtas. Alguns fundos das chamadas butiques financeiras tiveram desempenho ruim no ano passado, decepcionando os cotistas que acreditavam na infinita capacidade das melhores grifes do mercado de ganhar dinheiro em qualquer situação. Ledo engano.
Olhando em retrospectiva, o investidor irá entender que o toque de Midas atribuído a certas figuras - como Armínio Fraga, Luis Stuhlberger e Luiz Fernando Figueiredo - não passa daquilo que realmente é: um mito. Esses gestores são competentes e acertaram muitas estratégias até a crise, mas o tempo mostrou que eles são tão humanos quanto seus concorrentes e, portanto, também erram. Alguns de seus fundos de ações e multimercados perderam um bom dinheiro em 2008.
Milionários seduzidos pela marca Madoff perderam US$ 50 bilhões nos Estados Unidos
Aqueles que investiram nessas butiques mais atraídos pelas grifes do que pela capacidade de gestão financeira de suas equipes tomaram um banho de água fria. Não se trata, aqui, de avaliar em profundidade os motivos que levaram gestores experientes a perder fortunas de seus clientes - até mesmo George Soros e Warren Buffett quebram a cara de vez em quando. Eles têm muitas desculpas, como a virada repentina dos cenários econômicos, a queda vertiginosa das bolsas e a disparada do dólar no Brasil. Os que acreditaram em seu próprio toque de Midas e tentaram acertar o "timing" do mercado, apostando em tendências de alta e de baixa de ativos no curto prazo, erraram a mão e perderam milhões. A questão que fica é até quando os investidores vão se deixar seduzir por fatores emocionais - e o apelo da grife é um fator emocional - na hora de aplicar seus recursos. É possível evitar o erro da fé cega nas butiques, nos gestores vistos como infalíveis ou privilegiados apenas porque ocuparam cargos importantes no governo. "A decisão de investimento nunca deve ser baseada em fatores emocionais", diz a psicóloga financeira Patrícia de Rezende, da Gestori Consultoria Empresarial. "Ninguém deve deixar o dinheiro na mão de um gestor e esquecer do assunto. Tem de acompanhar e questionar sempre o desempenho", recomenda. Mas quem consegue separar a razão da emoção?
Ao longo da história, o investimento baseado em fatores não-racionais sempre se repete. Quanto maior a bolha, maior o apelo das grifes financeiras. Onze anos atrás, os sócios da Linear, o ex-presidente do Banco Central Ibrahim Eris e Luís Paulo Rosenberg, ex-assessor do governo Sarney, atraíram cotistas para um fundo de alto risco, o Tiger. Com a crise da Ásia, o Tiger praticamente virou pó. Muitos clientes, embalados pela onda da bolsa de valores, não sabiam o risco que estavam correndo. Casos como esses tendem a ser esquecidos com o tempo, pois se tornam pequenos diante de outros que viraram caso de polícia.
Um exemplo que deverá ser lembrado para sempre aconteceu no ano passado, nos Estados Unidos. O gestor Bernard Madoff atraía clientes milionários de vários países, inclusive do Brasil, propagando o próprio mito. A grife Madoff era vendida como exclusiva: para aplicar alguns milhões de dólares, era preciso ser convidado, frequentar o jet set internacional. Dizer que era investidor do Madoff dava status. O gestor prometia rendimentos estáveis, em torno de 12% ao ano, em qualquer situação de mercado. Satisfeitos, os clientes não faziam perguntas. O final da história você conhece: US$ 50 bilhões desapareceram. Madoff era um farsante genial e enganou milhares de pessoas durante duas décadas. O principal erro dos seus clientes foi confiar na grife, ignorar a gestão dos riscos e tolerar a ausência de controles externos. "O Madoff fazia a gestão da carteira, a liquidação das operações e a custódia dos ativos. A auditoria era feita por uma empresa dele no andar de cima", diz o advogado Ary Oswaldo Mattos Filho, diretor da Escola de Direito de São Paulo, da FGV. "O risco era muito grande."

Não dá para comparar o caso de Madoff com os problemas atuais das butiques brasileiras. Aqui, não se tem notícia de crimes financeiros. A regulação e a supervisão dos fundos pelo governo são mais fortes no Brasil. Mas pode-se extrair uma lição lá de fora: é possível minimizar o risco das butiques, escolhendo gestores que sejam supervisionados e controlados por terceiros. Se o gestor cuida apenas da definição e execução da estratégia e delega para outra instituição a custódia dos ativos e a administração das carteiras (no caso, da parte burocrática), melhor. Essas empresas, como a CBLC e o Bank of New York Mellon, são chamadas de gate keepers (guardiões) e atestam a existência dos ativos e a lisura das operações. Uma boa auditoria externa também minimiza o risco. "Os gate keepers garantem que não há conluio com o gestor, que não há esquema de pirâmides", diz o superintendente da Comissão de Valores Mobiliários, Carlos Alberto Rebello Sobrinho. "A segurança depende da política de investimentos de cada fundo."
Do ponto de vista legal, os fundos dos grandes grupos oferecem risco semelhante ao das carteiras de grife. Não há obrigatoriedade de um conglomerado socorrer um fundo seu. Mas como existe um risco de imagem e de perda de recursos volumosos, os maiores bancos não têm interesse em soluções traumáticas. Já as butiques, que vivem da fama de seus sócios e dos resultados obtidos ao longo do tempo, não podem deixar seus clientes na mão, sob pena de sucumbir em momentos de tumulto dos mercados. Como sempre, quem for sério e competente, sobreviverá. |