Viva a segunda divisão! Por Amauri Segalla

O futebol brasileiro é mesmo cheio de surpresas. Há alguns dias, o Corinthians divulgou o seu balanço financeiro com dados relativos aos 11 primeiros meses de 2008. Até 30 de novembro do ano passado, o clube lucrou R$ 13 milhões. A imprensa esportiva não deu bola para o resultado. Ninguém deu. O próprio Corinthians não fez estardalhaço. Mas deveria ter feito. Nos últimos anos, fechar o ano no azul é novidade na vida do time paulista. Em 2007, o clube perdeu R$ 23 milhões. Em 2006, os prejuízos totalizaram R$ 24 milhões. O curioso é que o Corinthians alcançou seu melhor resultado no ano em que disputou a segunda divisão.
É fácil de entender as razões que levaram o clube a faturar mais no ano que, teoricamente, era para ser o mais trágico de sua história. Por algum motivo que só especialistas na alma humana podem explicar, a torcida costuma encher estádio quando o time de coração está na lama. Foi assim com o Palmeiras, em 2003, e com o Grêmio, em 2005. Estádio lotado é sinônimo de dinheiro. Em 2008, enquanto os jogadores corintianos suavam a camisa em campo, as arquibancadas enriqueciam os cofres do clube. De janeiro a novembro, as receitas com bilheterias do Corinthians totalizaram R$ 16,6 milhões. No mesmo período de 2007, com o time na primeira divisão, o valor foi praticamente a metade: R$ 8,4 milhões. Isso corresponde a uma diferença de impressionantes 97%.
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| Em 2008, o Corinthians ganhou dinheiro como nunca. O time lucrou R$ 13 milhões. A renda de bilheteria duplicou. O patrocínio bateu recorde. O milagre? A segunda divisão |
O último balanço do Corinthians parece ser uma espécie de ode à segunda divisão. Não há dado que não seja favorável ao escalão supostamente inferior do futebol brasileiro. No ano passado, as receitas geradas por patrocínio e publicidade cresceram 19%. Enquanto esteve na série B, o Corinthians ostentou na camisa o maior patrocínio esportivo do Brasil. A empresa de saúde Medial pagou, por um contrato de um ano, R$ 16,5 milhões. Foi mais do que a LG desembolsou para o hexacampeão brasileiro São Paulo, que recebeu R$ 16,3 milhões. Até as cotas de transmissão de TV subiram 6%. O Corinthians ganhou mais do que em 2007, quando integrava a tropa de elite do futebol, porque na segunda divisão todos os seus jogos foram transmitidos. Isso, obviamente, gerou maior exposição. Daí o patrocínio esportivo ser maior. Daí mais dinheiro no bolso. O ciclo financeiro saudável fica completo com uma redução brutal de custos que só a segunda divisão permite. Como os adversários são mais fracos, não é preciso montar um time de estrelas. Ou seja, você dispensa atletas caros e contrata os medianos que aceitam trabalhar por salários menores.
Para quem gosta de razões psicológicas, a segunda divisão tem um efeito na auto-estima do torcedor. E, acredite, um efeito positivo. Um amigo corintiano, pai de um garoto de 10 anos, levou o filho a todos os jogos do Corinthians realizados em São Paulo. O Corinthians ganhou quase todas as partidas e o rebento ficou feliz da vida. Detalhe: meu amigo não contou que eram jogos da segunda divisão. Para uma criança, afinal, tanto faz. O importante é ver seu time vencer.
O último campeonato brasileiro terminou com outro grande rebaixado. A vítima da vez foi o Vasco da Gama. A torcida chorou na arquibancada e houve até uma tentativa de suicídio na partida derradeira, em São Januário. Passado o desespero, o clube carioca parece estar seguindo os passos do Corinthians. Há algumas semanas, anunciou um novo contrato de patrocínio. A estatal Eletrobrás vai pagar R$ 14 milhões para colocar seu nome na camisa dos jogadores. No ano passado, quando estava na elite, o Vasco recebeu R$ 6 milhões da MRV. Para os grandes times brasileiros que buscam uma saída milagrosa para seus apuros financeiros, há uma receita infalível, fácil de ser aplicada: caiam – com urgência – para a segunda divisão.
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