Entrevista / Alexandre Póvoa, economista e diretor
"A bolsa piora antes de melhorar" POR MARCIO KROEHN

O economista Alexandre Póvoa dirige a equipe de gestão de ativos do Modal Asset, sediado no Rio de Janeiro e com ativos de R$ 1 bilhão. O Modal destacou-se no ano passado como uma das cinco instituições com o maior índice de acertos em previsão de inflação e da taxa Selic no Boletim Focus do Banco Central. Dos cinco fundos multimercado e long and short comandados por Póvoa, dois aparecem no ranking dos dez melhores de suas categorias no guia ONDE INVESTIR EM 2009, que começa na pág. 40. Apesar da fuga dos investidores dos fundos, que perderam R$ 78 bilhões em 2008, Póvoa enxerga um ano positivo para os gestores independentes. "A indústria de fundos vai sair da crise mais forte do que entrou", diz.
DINHEIRO - O que explica a fuga dos investidores em fundos em 2008?
ALEXANDRE PÓVOA - Os CDBs acabaram se tornando um concorrente muito forte. Instituições de primeira linha lançaram CDBs com taxa de 105% do CDI, enquanto seus fundos rendiam 90% do CDI. Mas o problema não vai se repetir em 2009, com o encolhimento do mercado de crédito.
DINHEIRO - Os fundos mais agressivos não prometeram mais do que podiam entregar?
PÓVOA - Foi um problema de gestão. Quando chegou a crise, eles menosprezaram o tamanho do problema e não souberam operar em um ambiente mais volátil. Antigamente o câmbio caía e o juro ia para baixo no Brasil. Durante o segundo semestre de 2007 e o primeiro de 2008, o real se valorizou e o juro caiu. Não gosto da teoria de que foi fácil ganhar dinheiro entre 2003 e 2007. É verdade que houve um período com altas muito fortes em bolsa, de valorização do real, de queda de juros. Mas falar olhando para trás é fácil. O que aconteceu foi, sem dúvida, um mercado muito menos complexo. E dentro das bolhas que foram criadas, houve uma bolha na gestão de recursos no Brasil. Profissionais saíam de seus empregos e montavam empresas de gestão com duas ou três pessoas e alguns sistemas de informação financeira. Não é por aí. Essa é uma atividade cada vez mais cara, com investimentos em pesquisa e pessoas. Há um alto grau de complexidade da economia mundial, como ficou comprovado nesse último ano e meio.
"As fusões de Real e Santander, Itaú e Unibanco liberam recursos para os demais gestores"
Fabio Barbosa, presidente do Santander |
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DINHEIRO - Os fundos multimercado estão desacreditados?
PÓVOA - Sim, por erros na venda desse tipo de fundo. Seu grande charme é a liberdade do gestor, que pode vender dólar e também ficar comprado em dólar. O ponto-chave é a criatividade para ganhar dinheiro em qualquer cenário. Isso, claro, se acertar o cenário. Ficou no ar a percepção de que em épocas de mercado negativo não se consegue ganhar dinheiro em multimercado. Isso não é verdade. Pode-se ganhar tanto ou mais quanto em épocas positivas. Na média, esses fundos não foram bem porque os gestores talvez quiseram acertar a direção, mas não conseguiram. Para os gestores, foi um período de aprendizado. Como os ferimentos foram muito grandes, vai ter um processo de fechamento e fusões de empresas de gestão.
DINHEIRO - A consolidação é normal?
PÓVOA - Normal e saudável. A indústria de fundos no Brasil é muito nova. Apesar de o começo datar da década de 70, o crescimento mais forte somente ocorreu nos últimos dez anos. É normal esse processo da bolha para consolidação. No andar de cima da indústria, vai ter a fusão do Santander com o ABN Real e a do Itaú com o Unibanco. São quatro gestoras muito grandes que vão se unir. E a soma não dobra seus recursos. Se existir um cliente com carteira no Itaú e outra no Unibanco, provavelmente ele vai deixar uma parte do dinheiro no novo banco e procurar um outro gestor para colocar a outra parcela. É bom, porque libera recursos e cria oportunidades para os outros gestores começarem a crescer. O Banco do Brasil também está comprando um monte de bancos. E na parte de baixo da indústria, onde estão os fundos mais agressivos, muita gente simplesmente irá fechar as portas, será comprada ou se fundirá. Como em toda a crise, a indústria vai ficar mais forte do que entrou, com gestores mais equilibrados e mais fortalecidos.
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DINHEIRO - O caso Madoff, que sumiu com US$ 50 bilhões nos EUA, chocou os investidores em 2008. Poderia acontecer algo parecido no Brasil?
PÓVOA - Com a nossa legislação, o rigor da auditoria e o papel da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), é muito improvável que isso fosse possível. É óbvio que podemos avançar, mas tanto a indústria de fundos como a CVM fazem uma parceria muito boa na parte de regulação. Confesso que não consegui entender como Madoff fez aquilo. E acho que ninguém conseguiu entender por completo. Ele pegava o dinheiro e com isso criava uma rentabilidade falsa no fundo. Mas, quando entra o dinheiro, é preciso emitir a cota do fundo. Não pode entrar e ficar no bolso dele. E alguém tem que fiscalizar, a SEC (CVM americana) ou a própria empresa de auditoria. É uma coisa primária, que envolve como clientes grandes bancos do mundo, como Santander e HSBC.
DINHEIRO - O Ibovespa volta aos 70 mil pontos em 2009?
PÓVOA - Sou pessimista com os três primeiros meses do ano. Os ativos de risco que melhoraram no final de 2008 talvez devolvam parte disso. A partir daí, os dados econômicos, os efeitos de tudo o que foi feito, como política fiscal e monetária, vão começar a ser sentidos. E 70 mil pontos é além do mais positivo. É muito pouco provável que a bolsa volte aos níveis anteriores. O lado ruim da história é que a onda positiva de commodities que puxou a bolsa brasileira nos últimos anos é a mesma que está puxando para baixo. Siderurgia, mineração, petróleo, petroquímica, papel e celulose representam 50% do que acontece na BM&FBovespa. Dificilmente esses setores vão ter desempenho bom em 2009. A bolsa piora antes de melhorar. O pé no chão para 2009 é acabar o ano perto de 50 mil pontos - o que seria bom. Para voltar aos 70 mil pontos, precisaria ter uma clareza sobre a economia mundial e os preços das commodities. Mas vai demorar para se ter essa visão mais clara.
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