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A era dos megagrupos não acabou
Por Joaquim Castanheira

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FABIANO CERCHIARI
A crise mudou muita coisa, mas não interromperá a seqüência de grandes negócios, iniciada em 2008. A motivação agora virá da necessidade de reduzir custos

2008 ficará marcado como o ano dos extremos - nasceu com a promessa de uma era de prosperidade e acaba mergulhado na incerteza, com um grande ponto de interrogação no futuro. Há, porém, um movimento no mundo corporativo que amadureceu ao longo deste ano e não sofreu abalo nem mesmo com a crise detonada a partir de 15 de setembro, data da quebra do Lehman Brothers. Poucas vezes o processo de consolidação empresarial demonstrou tanto vigor como em 2008, seja pela quantidade de fusões e aquisições, seja pelo volume de recursos envolvidos nessas transações. Só para se ter uma idéia: a Inbev arrematou a americana Anheuser-Busch, dona da Budweiser, por mais de US$ 50 bilhões. Juntas, elas formam a maior cervejaria do planeta. No âmbito exclusivamente brasileiro, Itaú e Unibanco uniram-se e assumiram a liderança entre os bancos privados por aqui. A turbulência financeira no Brasil e a recessão já instalada nos países desenvolvidos não interromperão essa marcha rumo à concentração. A era das megafusões não terminou.

É possível passear por todos os setores e os exemplos aparecerão. A lista é enorme. A Totvs adquiriu o controle da Datasul e tornou-se a número um no mercado de softwares corporativos no Brasil e a número dois na América Latina. Em shopping centers, a BR Malls abocanhou participações em diversos empreendimentos espalhados pelo País. Na distribuição de combustíveis, quem mais revelou apetite foi o Ultra. Depois de ingressar no mercado com a compra dos postos da Ipiranga, em 2007, o grupo levou a Texaco e tornou-se definitivamente um player desse mercado. Na semana passada, foi a vez de a MAN, segunda maior fabricante de caminhões da Europa, desembolsar mais de 1,1 bilhão de euros e assumir a Volkswagen Caminhões e Ônibus, cuja principal operação encontra-se no Brasil. Na telefonia, o caso mais emblemático teve seu desfecho nesta semana, quando a Anatel autorizou a aquisição da Brasil Telecom pela Oi.

As ondas desse movimento atingem os mais variados setores da economia, mas tinham, até agora, a seguinte motivação: com dinheiro farto no mercado financeiro internacional e crédito fácil, as empresas aproveitaram para ganhar musculatura e escala em um mercado em franca ascensão em todo o mundo. As companhias brasileiras receberam um empurrão extra nessa direção, graças ao dólar muito barato. Além disso, tinham caixa bem fornido em função tanto dos processos de abertura como do bom momento vivido pela economia brasileira. Esse cenário mudou bruscamente nos últimos dois meses. O dólar disparou e a liquidez se transformou em empoçamento, em secura de recursos ou qualquer que seja o nome dado à falta de dinheiro. Por que, então, o processo de consolidação manteve o mesmo ritmo de antes? Por exemplo: a união do Itaú com o Unibanco e a compra da Volks pela MAN ocorreram no auge da crise.

O que mudou foi a motivação das companhias. Hoje, elas não buscam tamanho para conquistar novas fatias de mercado ou expandir sua atuação geográfica. O principal objetivo é aproveitar as possíveis sinergias de uma fusão, reduzindo custos fixos e reforçando áreas estratégicas como distribuição e compras. Há também gente aproveitando as pechinchas que surgiram com a impressionante queda no valor das ações de companhias ao redor do mundo. O efeito, contudo, é o mesmo de sempre quando há a associação de dois gigantes - esse efeito tem duas faces. Se, por um lado, as megafusões criam grupos mais sólidos e saudáveis, por outro, elas deixam clientes e consumidores mais frágeis diante dessas novas forças. Trata-se de um assunto que merece mais atenção nessa era das megafusões.

 


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