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"A crise lá fora é uma oportunidade para nós"
POR OCTÁVIO COSTA

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Quem está pessimista em relação ao futuro da economia brasileira deve agendar uma visita ao presidente do BNDES, Luciano Coutinho. Do alto do 19º andar da imponente sede do banco estatal na avenida Chile, no Rio de Janeiro, ele só tem boas notícias. O BNDES desembolsou mais de R$ 90 bilhões neste ano e, no próximo, terá mais de R$ 100 bilhões para financiar grandes projetos empresariais. Metade dos financiamentos será destinada às obras de infra-estrutura. Em entrevista à DINHEIRO, Coutinho revela que as consultas empresariais cresceram 40% e diz estar convicto de que o vento ainda sopra a favor do País. "Empresas que já cancelam tudo lá fora estão mantendo projetos só no Brasil", diz ele.

DINHEIRO - O governo tem deixado claro que o BNDES é um mecanismo essencial da política anticíclica. O banco vai responder ao desafio?
LUCIANO COUTINHO - Sim, mas nada substitui a decisão privada de investir. O BNDES tem trabalhado para suprir deficiências de crédito, especialmente do crédito de longo prazo, cuja oferta no mercado internacional e através do mercado de capitais, aqui no Brasil, foi razoavelmente abundante em 2006 e parte de 2007, mas foi escasseando. O BNDES tem se esforçado para ampliar a oferta de financiamento para o investimento produtivo da economia. Representávamos entre 20% e 25% da oferta de financiamento para a formação de capital e, agora, estamos um pouco acima de um terço. Essa é uma missão transitória do BNDES. Esperamos que os mercados se restabeleçam.

DINHEIRO - O desembolso do banco este ano vai atingir R$ 90 bilhões?
COUTINHO - Pode até superar um pouco os R$ 90 bilhões. E no ano que vem o desembolso será superior a R$ 100 bilhões. Já estamos negociando com o Ministério da Fazenda no sentido de equacionar as fontes de funding para o BNDES em 2009 e o compromisso público do ministro Guido Mantega é que esses recursos serão providenciados.

DINHEIRO - Qual foi a fatia destinada ao PAC?
COUTINHO - A infra-estrutura representou R$ 45 bilhões, ou seja, a metade. Um desembolso portentoso. Para o ano que vem eu diria que há o PAC, mas também outras obras de infra-estrutura que não estão no PAC, mas que também são relevantes, como a área de telecomunicações. Temos uma carteira muito firme de projetos já aprovados que nos sinalizam uma forte expansão dos investimentos em infra-estrutura. Acreditamos que em 2009 e em 2010 os investimentos em infra-estrutura dobrarão em relação ao nível verificado em 2008. Infra-estrutura no Brasil tem alta taxa de retorno, é um investimento atraente.

DINHEIRO - E qual a expectativa para outros setores, como bens de capital?
COUTINHO - O setor de bens de capital tem segmentos que continuarão fortemente demandados nos próximos anos. Na cadeia de óleo e gás, a Petrobras manterá seu plano estratégico de investimento, que constitui outra força de propulsão da economia brasileira. Toda a cadeia supridora de bens de capital para petróleo e gás será fortemente demandada nos próximos anos e requererá investimentos de grande envergadura. Aqui no BNDES, temos demandas de financiamento de novos estaleiros e de ampliação de estaleiros. A carteira de fornecimento de navios, de plataformas e de outros equipamentos offshore só cresce e sinaliza a necessidade de desenvolvimento de toda da cadeia de fornecimento. Também deverá permanecer bastante aquecida a demanda por equipamentos para o complexo do bioetanol, sucroalcooleiro. Além disso, há demanda de bens de capital ligada tanto à construção pesada necessária para infra-estrutura quanto à construção residencial. Esses três segmentos de bens de capital tenderão a permanecer bastante firmes nos próximos dois anos. E há ainda surpresas positivas.

DINHEIRO - Quais são as surpresas?
COUTINHO - Recebemos a confirmação de dois grandes projetos siderúrgicos. Não posso dar os nomes, porque um deles está na fase de consulta, mas a empresa declara firmemente que manterá seu projeto. Na área de nãoferrosos nós tivemos aqui uma declaração importante de uma empresa internacional que disse que cancelou tudo no mundo, salvo os projetos no Brasil. A mesma coisa tem acontecido na área de celulose. A maior parte dos projetos está sendo confirmada.

ROBERTO CASTRO/AG. ISTOÉ

DINHEIRO - Como o sr. explica essa tendência?
COUTINHO - Os projetos nesses setores são muito intensivos em capital e a sua implantação demanda pelo menos de quatro a cinco anos. Os empresários estão mirando no mercado a partir de 2012, 2013, quando a expectativa é de que a economia mundial já tenha se recuperado. Considerando que o Brasil é uma das bases mais eficientes de produção no mundo, ganharemos espaço de mercado lá na frente. Enquanto em muitos lugares produtores de alto custo se retiram do mercado, a possibilidade de o Brasil construir capacidade com custo competitivo pode representar oportunidade de mercado daqui a quatro, cinco anos. Assim, para a surpresa de muitos pessimistas, é possível que o investimento em insumos básicos seja maior do que se imagina nos últimos anos.

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