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Entrevista / Sérgio Reze
"Lucramos muito e não devemos demitir"
POR HUGO CILO

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Desde que a crise financeira internacional chegou ao setor automotivo brasileiro, o presidente da Federação Nacional dos Distribuidores de Veículos Automotores (Fenabrave), Sérgio Reze, iniciou um trabalho para convencer os cinco mil concessionários do País a preservar os 270 mil empregos do setor. Seu argumento é simples: depois de três anos de fortes lucros, com sucessivos recordes de vendas, há gordura para queimar e não faz sentido abrir mão de pessoas treinadas. “Não podemos passar tanto tempo ganhando dinheiro para depois chegar e, simplesmente, demitir”, diz o empresário. Leia a seguir sua entrevista.

DINHEIRO – Existem sinais de que a crise internacional começa a chegar ao setor automotivo brasileiro. Mesmo assim, seu discurso continua otimista. Até quando?
SÉRGIO REZE Não podemos fazer uma leitura isolada dos números. No mês passado, a queda de 26,34% contra novembro de 2007 refletiu um número menor de dias úteis. Esse dado é muito forte e assusta. Na média diária, que serve como termômetro para calcular o desempenho, a retração foi de quase 10%. Ruim, é verdade. No entanto, trata-se de uma desaceleração. Estamos falando de um prejuízo do crescimento, não de uma queda que aponta uma tendência de longo prazo.

DINHEIRO – O que explica a queda?
REZEVejo três causas principais. Primeiro, ainda temos um travamento do crédito. Os bancos têm dinheiro para emprestar, mas não liberam porque o risco está maior. As instituições financeiras estão bem mais rigorosas. Esse é um fator que prejudica. Outra questão determinante é a percepção das pessoas de que realmente há perigo de perder o emprego. Quando lemos notícias do tipo que a Petrobras tem problemas de caixa, o medo se espalha. De repente, pararam de falar do pré-sal. Isso também é ruim. Terceiro motivo: o carro usado.

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“Há, no setor de automóveis, um prejuízo do crescimento, não uma queda”

Linha de montagem da General Motors, no Rio Grande do Sul

DINHEIRO – Por que o carro usado? Qual a relação?
REZEO automóvel usado é fundamental para o nosso negócio. Se eu não o recebo na troca, muitas vezes eu não vendo o novo. As lojas não estão aceitando os usados porque o mercado perdeu o patamar de equilíbrio de valores para que se possa revender esse automóvel. Acontece que houve uma depreciação muito grande entre setembro, outubro e novembro dos carros mais velhos, cerca de 30% de baixa. Isso está trazendo um grande problema. Nós, lojistas, temos a percepção real de valor, porém as tabelas Fipe e Jornal do Carro, que são referências, mantiveram aquele patamar antigo. Precisamos conversar com quem anda fazendo essas tabelas. O sujeito entra na loja com o carro dele achando que vale X, mas o carro dele vale Y, bem menos. A gente fala para tentar vender lá fora e voltar com o dinheiro na mão. Enquanto isso não for resolvido, o segmento de usados vai continuar travado e as vendas de novos serão afetadas.

DINHEIRO – Se a situação perdurar, a crise inevitavelmente chegará às concessionárias, não?
REZEEu não tenho ainda notícias de dificuldades no meu setor. Inclusive, fiz uma carta a todos os nossos filiados no dia 25 de novembro para recomendar que não dispensem funcionários. Para acalmar o pessoal. Fiz isso por que sou caridoso ou por que quero tapar os olhos das pessoas? Não. Nossa atividade é muito pulverizada. A realidade aqui em São Paulo é uma, no interior do Estado é outra, no Nordeste é completamente diferente. Essa capilaridade ajuda um pouco a amortecer os impactos de uma possível crise. A característica do setor é de prestação de serviços. Não é só vendas. Temos serviços automotivos, como funilaria, revisão, serviços mecânicos, entre tantos outros segmentos que não param. Sem dúvida, isso ajuda a equilibrar as contas em períodos de baixa.

MURILLO CONSTANTINO/AG. ISTOÉ title=

DINHEIRO – Mas as demissões já começaram.
REZE Discordo. Acho que muito do que tem sido feito é pretexto, em especial dos bancos. Usam a crise como desculpa para ajustar o custo com funcionários. As empresas, principalmente do setor bancário, ainda não sentiram nenhuma variação negativa em seus negócios. Anunciam ajustes, mas continuam ganhando dinheiro. Aí a gente se pergunta: Não dá para segurar um pouco? As montadoras estão dando férias coletivas para evitar cortes. Essa é a primeira medida. A Ford não falou em dispensas nem a Volkswagen nem a Fiat. A GM falou em cortes porque enfrenta problemas que fogem da questão interna. A Mercedes-Benz também sinalizou algo nesse sentido. No entanto, no geral, o emprego está mantido, principalmente nas concessionárias.

DINHEIRO – Por que, então, há um receio do setor automotivo?
REZE É culpa da rádio peão. As fofocas espalham notícias ruins e fazem de anúncios antes considerados normais, como férias coletivas e PDVs (Programa de Demissão Voluntária), sintomas de uma crise real. Isso tem feito com que as pessoas deixem de comprar. Como alguém vai assumir um compromisso de mais de três anos sem saber se vai estar empregado no mês que vem? Todos estão com medo, sim. Porém, não podem culpar a crise porque ela ainda não existe aqui.

DINHEIRO – Até quando as concessionárias vão manter os empregos?
REZE Temos hoje cerca de 270 mil empregados, quase 10% mais do que em 2007. Não vamos mandar embora esse pessoal. Os vendedores têm carteiras de cliente já formadas. Se a loja o manda embora, piora a situação. É uma pessoa treinada que já que já recebeu bastante investimento em qualificação. É preferível que se sustente um pouco, combine novos valores e espere a crise passar. Se o vendedor não pedir demissão porque está ganhando pouco, o que acho improvável porque na loja ao lado a situação estará a mesma, logo a situação se normalizará.

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