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Via de mão dupla
Por Joaquim Castanheira

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É quase certo que o Congresso dos EUA aprove a ajuda de US$ 34 bilhões às três grandes montadoras de veículos americanas: GM, Ford e Chrysler. Os parlamentares avaliam qual das duas opções é politicamente menos desgastante: entregar dinheiro público para empresas com administrações ineficazes ou deixá-las ir à bancarrota, provocando o desemprego de centenas de milhares de trabalhadores e abrindo um novo capítulo na crise econômica mundial. Devem escolher a primeira alternativa. Em conjunto, os três gigantes têm comparecido às sessões com parlamentares com um discurso único: os recursos são necessários para garantir a continuidade das operações e para investimentos em produtos mais adequados aos atuais anseios dos consumidores. Mas por trás da aparente igualdade de condições, há diferenças significativas entre elas, o que leva alguns especialistas a enxergar uma agenda oculta na negociação entre o Congresso e as companhias. Curiosamente, a montadora que mais os preocupa é a menor delas, a Chrysler. Isso porque mesmo a ajuda financeira pode ser insuficiente para garantir seu futuro. Caso ela quebre, como os congressistas explicarão a injeção de dinheiro em uma empresa sem viabilidade?

A GM convive com a situação mais dramática. O próprio Richard Wagoner, presidente da companhia, admite que necessita urgentemente de US$ 4 bilhões para manter as operações do dia-a-dia. Além disso, quer mais US$ 16 bilhões para reestruturar seu modelo de produção e desenvolver automóveis menores e menos beberrões. A Ford, por sua vez, anunciou que os US$ 9 bilhões solicitados não seriam utilizados imediatamente, a não ser no caso de quedas mais acentuadas nas vendas e da quebra de um dos concorrentes, o que levaria o setor a uma crise sistêmica.

MARK WILSON/GETTY IMAGES

Os congressistas atacam o que chamam de “estilo perdulário” das montadoras. A chegada de Wagoner a Washington a bordo de um jatinho da companhia provocou críticas irônicas e se transformou em um símbolo dos hábitos dos executivos desse setor. Em contrapartida, as três empresas apresentaram planos de reestruturação na quarta-feira 3, que incluem salários simbólicos de US$ 1 para os presidentes, eliminação de bônus, desenvolvimento de carros híbridos e, é claro, a venda da frota de jatinhos. Os congressistas enxergam viabilidade econômica na Ford e na GM. Ambas possuem escala de produção, marcas de prestígio, operações globalizadas, e o foco de suas atividades é realmente a fabricação e venda de veículos. A Chrysler é diferente. Por mais dinheiro que se coloque na empresa, quais são, de fato, as perspectivas de sobrevivência dela? Ao contrário das duas concorrentes, o problema da Chrysler não é apenas de gestão ou inadequação de produtos, mas sim o modelo de negócios.

A Chrysler convive com crises há mais de três décadas. Desde que o lendário Lee Iacocca a salvou da falência nos anos 70, a empresa não mais se acertou. A fusão com a Daimler-Benz fracassou. Com isso, a Chrysler tornou-se uma empresa anacrônica, um player local num setor altamente globalizado. Pequena para os atuais padrões da indústria automobilística, seu controle acionário está nas mãos do Cerberus, um fundo de private equity, sem tradição no setor. Daí surge a eventual agenda oculta. Para liberar os recursos, os parlamentares e o governo americano estariam pressionando GM e Ford para resolver o “problema Chrysler”. A saída seria que as duas maiores assumissem o controle da menor. Mas os atrativos da Chrysler são pequenos. A empresa tem capacidade de produção. Mas quem precisa disso num momento de retração nas vendas? Sua linha de produtos privilegia os utilitários que se transformaram em vilões do consumo de combustível. De bom mesmo, há algumas marcas, como a Jeep. Antes da transferência de controle, os atuais donos da Chrysler fariam uma espécie de “arrumação de casa”, tornando a empresa mais palatável para as duas concorrentes. Ou poderiam pedir concordata para reduzir a pressão dos credores. É assim que se salvam empresas nos EUA. A conferir os resultados.

 

 


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