"O Brasil é um país extraordinário" POR MILTON GAMEZ

Seis meses atrás, quando assumiu a presidência do HSBC no Brasil, o britânico Shaun Wallis encontrou um país eufórico, recém-promovido a grau de investimento pelas agências de classificação de risco. A crise mundial mudou o cenário para pior, mas não alterou seu otimismo com o Brasil. Para Wallis, 53 anos, o mundo todo está caminhando para a recessão. "O Brasil não está e espero que continue assim. É um país extraordinário", afirma, ainda surpreso com as dimensões continentais e os recursos naturais e humanos que encontrou. O HSBC pretende crescer por aqui, mas é hora de ser conservador - não foi por acaso que o banco enfrentou crises globais e tornou-se o maior do mundo. O executivo falou à DINHEIRO.
DINHEIRO - Qual será a profundidade dessa crise mundial?
SHAUN WALLIS - Ninguém sabe. O fato é que a economia vai se desacelerar. O investimento direto estrangeiro irá se reduzir em todos os países, pois as pessoas ficarão mais cautelosas. Os Estados Unidos e a Zona do Euro estão em recessão. O Japão e o Reino Unido, também. Como a maior parte do mundo econômico está em recessão, os investimentos em países como o Brasil vão diminuir. Provavelmente, pelos próximos dois anos. Há sinais. Um banco americano [o Citibank] anunciou recentemente cortes de 50 mil funcionários.

DINHEIRO - Esse tipo de coisa pode acontecer no Brasil?
WALLIS - Não. Há muitos cortes de empregos no setor financeiro, principalmente nos EUA e na Europa. Há menos consumo, o que afeta todo o setor de serviços, as indústrias, o setor de habitação, as montadoras de automóveis. É isso o que está acontecendo. Os americanos estão inseguros, há menos empregos, menos dinheiro. Vendem-se menos carros. As grandes seguradoras que garantem o crédito para a GM e a Ford retiraram suas coberturas. Esse tipo de efeito em cascata afeta as empresas, seus empregados, seus clientes. Como isso afetará o Brasil? Não sabemos. A parte do PIB que depende do Exterior será afetada, mas não está claro como isso irá impactar o resto da economia. Pensávamos que poderia haver uma tendência de redução no consumo no País. O governo ajudou a manter os financiamentos para automóveis e agolibera o Banco Central sugere um aumento das vendas de veículos. É difícil saber exatamente o que está acontecendo. Devemos temer a perda da confiança do consumidor. Isso não precisa acontecer.
DINHEIRO - Por quê?
WALLIS - Porque o sistema financeiro está estável. Há dinheiro suficiente. Muitos empregos não são ligados a setores dependentes de exportação, de volumes gigantescos de construção civil, de vendas alavancadas de imóveis. Nos EUA, no Reino Unido e na Espanha há muita dependência de financiamentos bancários, as pessoas tomaram muito dinheiro emprestado e comprometeram sua renda.
DINHEIRO - E aqui é diferente?
WALLIS - Até agora, sim. A quantidade de pessoas que estão financiando a compra da casa própria não é tão grande, é menos de 5%. Na Europa, chega a 70%.

DINHEIRO - Como manter a confiança dos consumidores?
WALLIS - É um assunto político. A crise tem tido um tratamento político nos países desenvolvidos. Os políticos conversam e agem rapidamente para estabilizar o sistema. Nos Estados Unidos, tivemos muitos retrocessos por parte das autoridades. Eles salvaram alguns bancos nos últimos seis meses, mas deixaram outros tombarem. É uma política pouco clara. Quando Paulson [Henry Paulson, secretário do Tesouro] salvou as gigantes hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac, a moeda brasileira se enfraqueceu, pois as pessoas pensaram que o governo americano iria dar suporte a todos e começaram a comprar dólar. Para isso, venderam ativos e moedas com maior liquidez, como o real e as ações no Brasil. Na semana passada, Paulson disse que os US$ 700 bilhões do programa de recompra de ativos tóxicos não seriam usados para o objetivo inicialmente pretendido. Não se pode ter esse tipo de inconsistência. Os governos não podem tomar ações fortes num minuto e não fazer nada em outro. Isso deixa os mercados financeiros muito nervosos e inseguros. Ninguém sabe com certeza se deve comprar ou não títulos do Tesouro americano. Onde está a estabilidade das coisas? No Brasil, as coisas que afetam a economia têm vindo de fora. O que houve com a moeda brasileira não tem nada a ver com o que está acontecendo internamente. As quedas na Bovespa têm mais a ver com o sentimento dos investidores sobre o que ocorre no resto do mundo. Não se pode acreditar na validade das decisões que causaram as quedas tão fortes das ações da Petrobras e da Vale. Por que seus papéis oscilam tanto? Não faz sentido.
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