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À espera do Dia O
Por Luiz Fernando Sá

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Barack Obama assume seu assento na principal cadeira do Salão Oval da Casa Branca apenas no dia 20 de janeiro de 2009. Até lá, são quase dois meses de incertezas, cerca de 60 dias de expectativas, oito semanas de medo e ansiedade. No calendário da grave crise americana, a data está marcada como o Dia O – alguém já cogitou antecipar a posse? –, como se as tropas do presidente eleito fossem invadir o terreno minado da economia mundial e reverter, de uma hora para outra, o destino da guerra contra a recessão. Não se espera pouco de Obama. A mais recente edição da revista Time, por exemplo, traz em sua capa uma inspirada montagem em que sua figura substitui Franklin Delano Roosevelt em uma foto clássica. Roosevelt é apontado em pesquisas como o melhor presidente americano de todos os tempos, justamente por ter feito há quase 80 anos o que os americanos e todos nós singelamente achamos que Obama deve fazer agora. F.D.R. chegou à Casa Branca em meio a uma profunda depressão e saiu de lá com os Estados Unidos novamente em marcha. Sua obra foi baseada em um amplo programa de reformas e incentivo econômico conhecido como New Deal. Como o nome diz, ele costurou um imenso pacto e colocou todo um país trabalhando numa mesma direção. Ninguém lhe perguntou o preço futuro do grande plano. É possível fazer o mesmo hoje?

As antes inimagináveis cenas dos presidentes das três (antes) poderosas montadoras americanas de pires na mão, sendo achincalhados por deputados enquanto rogam por socorro às suas empresas, indicam que talvez não seja tão fácil. Em outros tempos, executivos desse naipe impunham mais respeito, colocavam sobre a mesa o peso de seus caixas monumentais e, se fosse necessário um apelo sentimental, o dos três milhões de empregos que a cadeia automotiva gera nos Estados Unidos. Hoje eles não têm o primeiro argumento. O segundo, passada a eleição, já não comove tanto os políticos. Estes, com certa razão, argumentam que a situação pré-falimentar das companhias não é fruto podre da atual crise financeira, mas de anos de decisões estratégicas equivocadas que as tornaram pouco eficientes e competitivas. Mas qual o custo de deixá-las quebrar, como os CEOs pedintes afirmam que acontecerá sem um socorro de US$ 25 bilhões? O que fazer com o enorme contingente de desempregados que poderia surgir à medida que as linhas de montagem fossem parando?

Socorrer a indústria automobilística, em um movimento semelhante ao que foi feito em relação aos bancos, parece legítimo e com fundamental impacto socioeconômico. Mas e os demais setores, que fariam fila nos gabinetes de Washington? O atual cenário americano indica que praticamente todos eles terão dificuldades e deixarão vítimas pelo caminho. Basta examinar o que ocorre com o Dow Jones, principal índice de ações da Bolsa de Nova York, aquele que reúne a melhor amostra das mais variadas indústrias americanas. No final de 1999, ele estava na casa dos 11.400 pontos. Na semana passada, sofria na faixa dos 8.400. Para um país em que as poupanças são feitas em ações, trata-se de um pesadelo, quase uma década perdida, para usar uma expresão bem conhecida pelos brasileiros.

Além disso, o fantasma da deflação passou a assombrar definitivamente o país, como uma prova de que faltam forças para uma reação que não seja induzida por trilhões de dólares em gastos públicos. O megaconsumo estatal, através da construção de grandes obras e estímulo fiscal a setores geradores de empregos e novas tecnologias, parece ser a melhor opção, mas deve gerar déficits monumentais a serem pagos no futuro. Gastar ou não gastar é um dilema que o enfraquecido George W. Bush já não tem mais condições de resolver. A pergunta é se, no Dia O, Barack “Roosevelt” Obama terá coragem para colocar essa idéia como âncora de seu novíssimo New Deal.

 

 


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