"Os bancos terão de ser mais regulados" POR LEONARDO ATTUCH

De todos os economistas brasileiros, nenhum publicou tantos papers internacionais quanto o professor Aloísio Araújo, do Instituto de Matemática Pura Aplicada e da Fundação Getulio Vargas, que reuniu, nesta semana, quatro vencedores do Nobel, no Rio de Janeiro. Nas discussões, um tópico se destacou: a regulação bancária, em função da crise global. À DINHEIRO, o professor, ele próprio especialista no tema, afirmou que já se formou um novo consenso: o de que o setor financeiro, sensível a crises de confiança, não pode se auto-regular. Isso não significa, no entanto, um revés na globalização e no pensamento liberal, diz ele. "A abertura comercial só trouxe benefícios à economia mundial", afirma. Leia a seguir sua entrevista.
DINHEIRO - O que explica a crise? Excesso de liberalismo na economia?
ALOÍSIO ARAÚJO - Um problema dessa dimensão não pode ser resumido a poucos fatores. Há várias causas que se somam. Mas uma delas, na minha visão, é o excesso de intervenção na economia - e não o contrário.
DINHEIRO - Como assim?
ARAÚJO - No setor imobiliário americano, havia duas instituições garantidoras, Fannie Mae e Freddie Mac, que não são totalmente privadas nem públicas. São uma coisa híbrida. Elas davam garantia aos empréstimos imobiliários, o que minimizava a percepção de risco dos agentes privados. Depois, havia um grande lobby democrata no Congresso, para que as instituições financeiras estendessem os empréstimos imobiliários às populações de baixa renda.
DINHEIRO - Gente que não teria acesso ao crédito em situações normais?
ARAÚJO - Não sei dizer, mas o fato é que, com esses incentivos, alimentouse uma situação distorcida. Ao mesmo tempo, bancos de investimento pegavam as operações e as multiplicavam, criando seus derivativos, que somam dezenas de trilhões de dólares.
DINHEIRO - Mas isso não é prova da falta de regulação?
ARAÚJO - Falta de regulação não significa falta de intervenção. A situação do mercado imobiliário foi conseqüência das políticas públicas colocadas em ação. Mas, de fato, agora se percebe que há a necessidade de mais regulação no sistema financeiro internacional.
DINHEIRO - Isso significa o colapso da visão liberal sobre os mercados?
ARAÚJO - Se você considerar como visão liberal o pensamento do economista austríaco Friedrich Hayek, talvez a resposta seja verdadeira, porque ele defendia que o sistema financeiro poderia se auto-regular. Mas se você olhar para o Milton Friedman, não menos liberal, ele dizia que o setor financeiro deveria ser o mais regulado de todos. Desconfio até de que a regulação que sairá da crise não será tão dura quanto o Friedman gostaria.
DINHEIRO - Por que o Milton Friedman tinha essa visão?
ARAÚJO - Por uma razão simples. Os bancos estão sempre descasados. Eles têm uma captação curta e emprestam a prazos longos. Além disso, podem se alavancar. Por isso, estão sujeitos a crises de confiança. E, quando essas crises de confiança se instalam, eles reduzem o capital dos bancos e produzem a contração do crédito, com efeitos seríssimos sobre a economia. Exatamente o que estamos vendo agora.
>
DINHEIRO - Como o sr. vê as medidas para enfrentar a crise de liquidez?
ARAÚJO - É curioso olhar para trás e lembrar que, em 2004, o Henry Paulson, que ainda era presidente da Goldman Sachs e não secretário do Tesouro americano, foi ao Congresso para pedir aos parlamentares que reduzissem as regras e os controles sobre os bancos de investimento. Seu argumento era o de que o excesso de regulação comprometia a inovação financeira. Depois do que aconteceu, ele teve de rever suas posições.
DINHEIRO - E o plano que ele próprio propôs, de usar US$ 700 bilhões para comprar títulos dos bancos?
ARAÚJO - Era confuso, de difícil implementação e poderia gerar um problema para o sistema financeiro.
DINHEIRO - Por quê?
ARAÚJO - A idéia era dar liquidez aos títulos imobiliários dos bancos, criando um mercado secundário para os papéis. Só que isso iria precificar os títulos e os bancos teriam de marcálos pelo valor real no balanço. A conseqüência poderia ser prejuízos ainda maiores às instituições financeiras. As coisas começaram a melhorar quando o Gordon Brown, na Inglaterra, partiu para a capitalização direta dos bancos. Tanto que até os Estados Unidos adaptaram seu plano.
DINHEIRO - E a decisão de deixar o Lehman Brothers quebrar. Foi ou não um grande erro?
ARAÚJO - Fazer a análise a posteriori é sempre mais fácil. Mas lá, no calor da hora, é mais difícil decidir. Se o Lehman tivesse sido salvo, poderiam dizer que o dinheiro público, do Tesouro, das famílias americanas estaria sendo usado para resgatar banqueiros irresponsáveis. Reforçaria a idéia da socialização dos prejuízos.
DINHEIRO - Mas a socialização acabou acontecendo de qualquer maneira.
ARAÚJO - Sim, é verdade, e é por isso que o tema da regulação se tornou tão atual. O objetivo deve ser evitar que novas crises como essa se repitam.
DINHEIRO - O mea-culpa de Alan Greenspan, que era o "maestro" dos mercados, o surpreendeu?
ARAÚJO - Acho injusto atribuir a responsabilidade pela crise a uma pessoa. O Greenspan acreditava num mercado mais livre, menos regulado, mas ele era uma peça. Até mesmo culpar o governo do presidente George W. Bush me parece equivocado, porque, como eu disse, quem mais pressionou para alargar o mercado de crédito para aqueles que não poderiam pagar foram os congressistas democratas.

DINHEIRO - O encontro do G-20, na semana passada, trouxe contribuições positivas para esse debate?
ARAÚJO - Houve vários pontos importantes. Um deles, a necessidade de uma supervisão global sobre os bancos. Tomemos, por exemplo, o caso dos bancos europeus. Na Europa, as instituições financeiras são mais reguladas, mas acabaram se expondo a riscos nos Estados Unidos. Os bancos brasileiros ficaram de fora da crise, porque são menos internacionalizados. Outro ponto discutido no G-20 foi a questão dos bancos de investimento, que provavelmente terão que se submeter aos mesmos controles das instituições comerciais. E houve ainda a questão que mais interessa ao Brasil, que é a necessidade de incluir os emergentes na discussão dos problemas e das soluções. São países que têm um trunfo na mão, que é sua própria liquidez externa, em termos de reservas cambiais.
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >> |