Que venham mais megabancos Por Milton Gamez

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O problema não é o lucro. É a incerteza, a mudança de regras no meio do jogo, a hesitação das autoridades e a incompetência que permitiu a falência do Lehman Brothers
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Começou bem a nova safra de lucros dos bancos brasileiros. Nos nove primeiros meses do ano, o Banco do Brasil teve um lucro líquido de R$ 5,9 bilhões, cifra idêntica ao do Itaú no mesmo período. O Bradesco, por sua vez, lucrou R$ 6 bilhões e o Unibanco, R$ 2,2 bilhões. Ao contrário do que aconteceu no início do ano, quando saíram os resultados de 2007, também na casa dos bilhões, desta vez não se ouvem críticas ferozes aos ganhos exorbitantes das instituições financeiras. Os brasileiros, diante do agravamento da crise bancária nos Estados Unidos e na Europa nos últimos meses, parecem ter compreendido o óbvio: existe coisa pior do que lucros estratosféricos de bancos saudáveis e lucrativos: bancos quebrados - como escrevi neste espaço, em fevereiro passado. De lá para cá, a situação internacional piorou e algumas instituições financeiras foram seminacionalizadas nos Estados Unidos e em países europeus, para horror dos discípulos da reaganomics e do thatcherismo, com suas cartilhas do Estado mínimo.
Ainda na semana passada, enquanto o BB e a Nossa Caixa mostravam ganhos robustos, as bolsas de valores internacionais tremeram com as declarações desastradas do secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, de que iria usar o pacote aprovado de US$ 700 bilhões para injetar capital nos bancos com problemas, em vez de comprar seus ativos podres. O mesmo Paulson que, em plena crise de confiança em outubro último, declarou que outros bancos iriam cair, voltou a jogar gasolina na fogueira do subprime. O que assusta não é somente o fato em si. Já se sabia, há várias semanas, que a compra de papéis tóxicos seria extremamente complicada e levaria meses, dada a dificuldade de colocar preços em ativos num momento de completa irracionalidade dos mercados. O problema é a incerteza, a mensagem errada de mudança de regras no meio do jogo, a hesitação das autoridades e a incompetência que permitiu a falência do banco de investimentos Lehman Brothers no pior momento econômico dos últimos 80 anos.
E no Brasil, o que aconteceu? Graças a um sistema financeiro robusto, o Banco Central teve apenas de se preocupar com a injeção de liquidez e a fluidez do crédito. Desta vez, o governo não precisou liquidar grandes bancos falidos nem promover casamentos forçados, como aconteceu no passado sob a égide do Proer e resultou na absorção das partes boas do Banco Nacional pelo Unibanco, do Bamerindus pelo HSBC e do Econômico pelo BBV. O que se viu, ao contrário, foi a fusão voluntária do Itaú e do Unibanco, que criou valor em plena turbulência e deverá render bons frutos por muitas décadas. Pois que venham novos megabancos, capazes de competir entre si e gerar lucros saudáveis com base na prestação de serviços e na concessão de empréstimos. As empresas precisam de bancos confiáveis e sólidos que financiem seu crescimento e seus clientes. Cabe ao BC fiscalizar o setor, exigir prudência na gestão dos riscos e estimular práticas comerciais saudáveis, como faz com a divulgação das tarifas. Se o governo fizer a sua parte, reduzindo cada vez mais a dívida pública, o dinheiro irá escoar naturalmente para o setor privado.
Enquanto isso, será interessante observar a reação dos concorrentes do Itaú Unibanco. O Banco do Brasil e o Bradesco não foram os maiores durante décadas por acaso. Que suas próximas aquisições ou fusões sejam marcadas pelo bom senso e não pela aquisição a qualquer preço de instituições que não agreguem valor. No caso do BB, não existe mais espaço para a artificialidade e a criação de esqueletos contábeis. Felizmente, o presidente Lula sabe disso. O crescimento sustentável também é uma marca do Bradesco. Nessa guerra de titãs, o Brasil ficará pequeno em pouco tempo para seus banqueiros. E isso é bom. |