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"Obama representa o pós-terrorismo"
POR LEONARDO ATTUCH

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Sócio do grupo Brasilinvest, Mario Garnero conheceu todos os presidentes dos Estados Unidos desde Gerald Ford (1974-1977). Foi também ele quem aproximou o PT da administração de George W. Bush, em 2002 - o primeiro telefonema entre os dois presidentes ocorreu no seu escritório, em São Paulo. Atento aos movimentos da política americana, ele acredita que a vitória do democrata Barack Obama abre grandes janelas para o Brasil. Primeiro, em função da abordagem multilateral, que será colocada em prática depois do fim da guerra ao terrorismo. Segundo, pelas oportunidades econômicas. "Obama tem que atender aos anseios da classe média e um deles é a energia barata", diz o empresário. "Isso passa, necessariamente, pela abertura ao etanol brasileiro." A seguir, sua entrevista.

DINHEIRO - Qual é o verdadeiro significado da vitória de Barack Obama?
MARIO GARNERO - Muitas pessoas têm feito uma leitura mais superficial, que diz respeito à questão racial. Nesse aspecto, a eleição tem valor histórico, mas representa apenas um passo a mais na evolução da participação dos negros na sociedade americana. Basta lembrar que dois dos últimos chefes do Departamento de Estado, Colin Powell e Condoleezza Rice, são afrodescendentes. O aspecto mais relevante, a meu ver, é a virada de página na questão do terrorismo. Obama representa um mundo pós-terrorista, ou seja, um mundo em que os Estados Unidos voltarão a atuar de forma multilateral.

DINHEIRO - A guerra ao terrorismo chegou ao fim?
GARNERO - De certa forma, sim. O terrorismo está moribundo. Um exemplo disso é a Líbia, onde o líder Muammar Khadafi renunciou ao terrorismo, afastou-se da Al-Qaeda e hoje é recebido nos salões do mundo. Países que antes estavam no chamado eixo do mal, como a Coréia do Norte e a Síria, hoje dialogam com os Estados Unidos. E mesmo o Irã tende a ter uma aproximação negociada e pacífica com o governo de Barack Obama.

DINHEIRO - O que isso significa para o Brasil?
GARNERO - Uma grande janela, porque somos o líder natural da América Latina. Somos também um fator de contenção e pacificação de conflitos na região, o que nos coloca na posição de interlocutor privilegiado dos Estados Unidos. Havendo esse diálogo, surgirão oportunidades também na área econômica, a começar pelo etanol, e também no campo geopolítico.

DINHEIRO - Obama não terá outras prioridades na economia, como a própria crise americana?
GARNERO - Certamente. Mas a grande ênfase da política econômica do novo governo será ajudar a classe média. E isso passa pela questão energética. Um indicador central do humor do americano médio é o preço do galão da gasolina. E Obama também já disse várias vezes que pretende reduzir a dependência dos Estados Unidos em relação ao Oriente Médio.

DINHEIRO - Mas ele também foi financiado pelo lobby do milho. Isso não tende a amarrar sua gestão?
GARNERO - Não. A tarifa de US$ 0,54 sobre o etanol brasileiro terá de cair mais cedo ou mais tarde. Só que isso não pode ser feito de uma vez. Primeiro, porque criaria problemas para o Brasil. Sem a tarifa, todos os nossos usineiros exportariam para os Estados Unidos e haveria desabastecimento no mercado interno. Segundo, porque isso também criaria problemas para os produtores de etanol de milho. A saída natural é uma redução gradual e escalonada da tarifa.

DINHEIRO - Isso vai acontecer?
GARNERO - Vai. E uma prova disso é a ADM, maior produtora de etanol dos Estados Unidos e do mundo, estar investindo no Brasil. Eles próprios sabem que a proteção não pode durar para sempre. Estão aqui, pensando em exportar para lá.

DINHEIRO - Em relação à crise americana, qual será a sua duração?
GARNERO - Penso que ela não durará mais do que dois anos. Sabe por quê? Porque nenhum país reúne tanto capital intelectual e tanta capacidade de gestão como os Estados Unidos. Além disso, Obama está cercado dos melhores nomes possíveis. Ao lado dele, estão pessoas como Paul Volcker, Warren Buffett e Robert Rubin, pessoas com experiência prática e conhecimento histórico. E haverá ainda uma grande novidade na sua gestão.

DINHEIRO - Qual é?
GARNERO - O cruzamento interpartidário. Muitos republicanos farão parte da equipe de Obama. Um deles deve ser o secretário de Defesa, Robert Gates. Além disso, Colin Powell foi outro republicano de peso que declarou apoio a Obama. Fala-se também no Jamie Dixon, do JP Morgan, para a secretaria do Tesouro.

DINHEIRO - O sr. vislumbra uma grande coalizão?
GARNERO - Sim, os Estados Unidos vivem uma crise econômica de grandes proporções, que deverá aumentar a coesão interna do país. Outro nome que terá influência na administração Obama é o da senadora Hillary Clinton. Ainda que permaneça no Senado, ela terá uma posição estratégica.

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