Lula e Serra no mesmo carro

Na quarta-feira 29, o presidente Lula e o governador José Serra embarcaram no mesmo carro. Lula ao volante; Serra, como passageiro em um modelo conversível do pequenino Smart, um minicarro de luxo que a Mercedes deve vender a partir do ano que vem no Brasil. Os dois adversários políticos sorriam para as câmeras na abertura do Salão do Automóvel, em São Paulo. Passaram a imagem de companheirismo, de colegas prontos para sair em um passeio, confiantes de que não há mau tempo à frente. Na mesma cerimônia, Lula, mestre na tradução dos eventos econômicos para a linguagem popular, deixou claro que, pelo menos nesses tempos estranhos, eles estão mesmo juntos na tortuosa estrada da crise. O presidente guia. O governador paulista segue na mesma direção. A grande preocupação de ambos, porém, é a de que o carro continue andando, ainda que reduza um pouco a velocidade, rumo a 2010.
“Quem faz planos para comprar uma geladeira, um carro, tem de ver se cabe no orçamento. Mas tem de continuar comprando”, pregou Lula ao discursar no Salão. “O que a gente não pode é aceitar que o pânico, o medo, a desconfiança gerem qualquer problema para a gente fazer as compras que deve fazer”, prosseguiu, explicando que quando isso acontece, além de as empresas sofrerem, a arrecadação de impostos cai nos cofres públicos dele e de Serra, que estava a seu lado, e também o governo pára de investir. Nas últimas semanas, o presidente tem apelado seguidamente em nome da lucidez. Agora, sem a pressão eleitoral, usa seus longos discursos para bater na mesma tecla de que crise financeira é uma coisa e economia real é outra. Uma, é claro, contagia a outra. Mas o perigo maior para o brasileiro que não tem idéia do que é um derivativo e não participa da jogatina dos investimentos exóticos é fechar os olhos para o que acontece no seu dia-a-dia e ficar paralisado diante da cegueira.
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| O presidente guia. O governador segue na mesma direção. A preocupação dos dois é a de que o carro continue andando, ainda que um pouco mais devagar, rumo a 2010 |
Lula é aquele motorista prático e intuitivo que encara, na boléia, qualquer terreno com a mesma destreza. Serra, um navegador sofisticado, que pilota com a ajuda de instrumentos. Líder da oposição, esboçou críticas fundamentadas à reação do Banco Central e da Fazenda aos primeiros efeitos da turbulência global no País. Mas não procurou desvios de rota. Na mesma quarta-feira em que Lula convocava os executivos da indústria automobilística a não desacelerarem seus investimentos – que podem chegar a US$ 23 bilhões até 2011 –, Serra deu uma demonstração prática de confiança na economia real ao determinar a realização, pelo governo de São Paulo, dos leilões para concessões de 1.715 quilômetros de rodovias estaduais. Para muitos, a escassez de crédito e o clima de incertezas afastariam prováveis interessados e isso resultaria no fracasso da operação. Serra, ainda assim, foi em frente. E saiu vitorioso. Oito grupos apareceram para dar lances e a concorrência fez com que os deságios nas tarifas dos pedágios chegassem a até 55%. Os cofres do Estado recolheram, numa tarde, cerca de R$ 3,5 bilhões – e os consórcios vencedores dos cinco lotes ofertados se comprometeram a investir outros R$ 8 bilhões nas rodovias.
Com a decisão, Serra provou que o que Lula diz não é discurso vazio. Nos últimos anos, a estabilidade e o crescimento econômico proporcionaram a capitalização das empresas brasileiras de uma forma poucas vezes vista antes. Graças aos lucros acumulados nos últimos anos e à ampliação histórica do mercado interno, muitas delas têm agora condições de embarcar no carro dos dois governantes pela estrada das oportunidades.
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