"O capitalismo não acabou" POR DENIZE BACOCCINA, ENVIADA ESPECIAL A WASHINGTON

O economista John Williamson, que no fim dos anos 80 cunhou a expressão Consenso de Washington, diz que, neste momento de pânico, a intervenção dos governos no sistema financeiro faz sentido, mas vê com receio a tendência estatizante em vários países. "No longo prazo, não funciona; como medida de emergência, tudo bem", afirmou em entrevista à DINHEIRO. Ele ainda defende a adoção de políticas liberais e diz que a crise atual não irá colocar em xeque o modelo capitalista. Conhecedor do Brasil, o economista do Instituto de Economia Internacional, em Washington, diz que o País deveria se aliar ao esforço global para reduzir os juros e minimizar os efeitos da recessão mundial que se aproxima. Leia a seguir:
DINHEIRO - Governos do mundo todo estão fazendo fortes intervenções na economia, comprando participações em bancos. O Consenso de Washington deu lugar ao consenso europeu?
JOHN WILLIAMSON - Depende muito do que você quer dizer com Consenso de Washington. Se você se refere à versão levada adiante por John Stiglitz e outros, nunca houve um consenso aqui nem em nenhum outro lugar. Então, é claro que está no passado. Se você diz o que eu queria dizer com o Consenso de Washington, que é essencialmente o que sobreviveu dos anos Reagan, eu não acho que seja preciso modificar nada. Acho que é muito consistente com o que as pessoas estão dizendo na Europa. Elas não Entrevista / John Williamson estão pregando o fim do capitalismo ou nada deste tipo, mas a continuação de uma política de orientação de mercado de forma ampla. Eu disse várias vezes que o que era novo sobre o Consenso de Washington é que os países em desenvolvimento estavam adotando as políticas dos países da OCDE.
DINHEIRO - Há um ano não se podia falar de o governo comprar participações em bancos, mas parece que há uma aceitação geral desta idéia.
WILLIAMSON - O fato de as coisas terem ficado tão mal com as políticas atuais é que fez com que as velhas idéias liberais como um todo ficassem desacreditadas. Mas eu continuo achando que o governo não deve ter participações em bancos e empresas. Essa não é uma política para ser adotada no longo prazo. Mas é necessária neste momento como uma política de emergência. Eu era favorável à nacionalização do Northern Rock, um banco da Inglaterra, no início da crise, no ano passado. É uma coisa que tinha que ser feita naquelas circunstâncias.

DINHEIRO - O que o sr. acha que vai acontecer agora com o pensamento econômico liberal? Vai haver um retorno a John Maynard Keynes?
WILLIAMSON - Nunca achei que Lord Keynes tinha perdido relevância completamente. Keynes era claramente relevante para um tipo de situação bem mais limitada do que ele imaginou nos anos 30, mas que está voltando agora. Uma situação de retração global. E Keynes se tornou relevante de novo. Não acho que uma pessoa precise revisar totalmente seu pensamento para acomodar isso. Pelo menos não se a pessoa já tinha pensamentos sensatos antes.
DINHEIRO - O que é necessário, ação direta do governo ou mais regulação?
WILLIAMSON - Não é que as coisas estivessem desregulamentadas. É que muitas coisas novas que surgiram no mercado financeiro não estavam regulamentadas. Como alguns tipos de derivativos. Completamente sem regulação. E o mesmo vale para os financiamentos imobiliários conhecidos como subprime. Essas operações eram securitizadas e revendidas. É possível criticar as agências de rating por dar notas muito generosas a esses bancos que ganharam uma fortuna inventando esses produtos, que agora são chamados de tóxicos.
DINHEIRO - Até que ponto se pode culpar o governo do presidente George W. Bush pela crise?
WILLIAMSON - Não se pode pessoalmente culpá-lo pelo colapso atual. Ele pode ser culpado por permitir que o sistema financeiro continuasse sem nenhuma tentativa de regulação. Houve alguma tentativa em países emergentes, mas nenhuma tentativa séria nos Estados Unidos.
DINHEIRO - Alguns republicanos têm expressado preocupação com o fato de que, se Barack Obama vencer as eleições, o governo terá um grande poder que pode ser utilizado de forma errada. O sr. enxerga este risco?
WILLIAMSON - É, eu concordo, é um poder que pode ser mal usado. Não havia uma alternativa na situação atual, mas não é uma situação ideal.
DINHEIRO - Pode haver uma mudança de paradigma e uma rejeição do Estado mínimo em favor de um Estado com maior participação na economia ou o que estamos vendo é apenas uma emergência que será revertida?
WILLIAMSON - Acho que haverá uma relutância em voltar à situação em que não havia regulação nem supervisão. Acho que vamos nos aproximar de uma situação na qual haverá uma regulação do sistema bancário, mas sem participação acionária do governo nos bancos. É uma situação desejável a longo prazo.
DINHEIRO - Haverá uma reunião dos presidentes do G-20 em Washington no dia 15 de novembro. O sr. acha que haverá um acordo sobre o nível de regulação que é necessário?
WILLIAMSON - Não acho que terão tempo para detalhes, mas penso que poderiam criar regras básicas neste nível intermediário que eu mencionei. O capitalismo não acabou.

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