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Risco oculto
Tensão elevada dos mercados é o primeiro grande teste para o sistema de garantias da BM&FBovespa. Até que ponto os R$ 125 bilhões em ativos de clientes são suficientes?

MILTON GAMEZ

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Nível de risco das operações no pregão da BM&F é medido a cada 15 minutos. Nas bolsas americanas, a verificação ocorre só uma vez por dia

OS NÍVEIS DE ESTRESSE nos mercados financeiros nunca estiveram tão altos. Perdas bilionárias tiram o sono de investidores, banqueiros e corretores. Os devotos das operações de altíssima periculosidade não desgrudam os olhos dos terminais da BM&FBovespa, o templo do risco no Brasil. No barulhento pregão da praça Antônio Prado, em São Paulo, operadores comandam o sobee- desce das cotações do dólar e dos juros, construindo ou destruindo fortunas em segundos. Os superprejuízos da Sadia (R$ 760 milhões), da Aracruz (R$ 1,95 bilhão) e da Votorantim (R$ 2,2 bilhões) com operações cambiais levantaram uma megadúvida: até que ponto o mercado de derivativos e futuros da BM&FBovespa agüenta o tranco? A própria bolsa se faz essa pergunta todos os dias, ininterruptamente. De 15 em 15 minutos, os sistemas de gestão de risco rodam todas as informações disponíveis sobre os ativos, os clientes, as corretoras e os bancos. A exposição de cada pessoa física e jurídica nos mercados à vista e futuros de ações, de câmbio, juros e commodities agropecuárias é monitorada o tempo todo. Os efeitos das altas e baixas das cotações na riqueza de cada participante – ninguém escapa – são calculados em cenários otimistas e pessimistas. Se o humor dos mercados muda para pior e alguém corre o risco de uma grande perda, a bolsa detecta na hora e toma novas providências a tempo de garantir que a dívida será honrada e as partes ganhadoras irão receber o lucro gerado. Se porventura uma empresa vier a quebrar, seus compromissos serão quitados e o efeito dominó, evitado. Não há risco sistêmico, de quebradeira geral por conta de novos megaprejuízos? “Não, o mercado brasileiro pode absorver. Risco zero”, responde Edemir Pinto, presidente da BM&FBovespa.

O modelo de gestão de risco da bolsa é complexo e até mais avançado que o de congêneres nos Estados Unidos. Lá, os sistemas das bolsas “rodam o risco” só uma vez por dia e não mostram posições individuais dos investidores, apenas exposições líquidas (lucros menos perdas) dos bancos que operam em nome dos clientes. Aqui, o caso Nahas, as quebras dos bancos Bamerindus, Econômico e Nacional após o Plano Real e a derrocada dos bancos Marka e Fonte Cindam com a flutuação cambial, em 1999, fizeram com que Bovespa e BM&F melhorassem as regras prudenciais e criassem salvaguardas. A reforma teminou com a criação do Sistema de Pagamentos Brasileiro, em 2002, que resultou em transferências de recursos em tempo real e na criação de clearings (câmaras de liquidação) para cada mercado. Isso segregou o risco de ações, câmbio e derivativos, evitando a contaminação de um ambiente pelo outro.

A redução do risco sistêmico do mercado financeiro foi um dos fatores que fizeram o Brasil ser promovido a investment grade pelas agências de classificação de risco no primeiro semestre deste ano. Agora, a BM&FBovespa passa por seu primeiro grande teste de segurança, uma crise internacional com eventos imprevisíveis. Será que ainda há riscos ocultos e desconhecidos? A resposta é não. O que acontece ali dentro está seguro, diz Edemir Pinto. “Há garantias suficientes”, afirma. A bolsa exige dos participantes que depositem ativos em volume superior ao risco de perdas. No início da semana, essas garantias (títulos públicos, dinheiro, ouro, etc.) somavam R$ 125 bilhões. Somente na clearing de derivativos, elas chegavam a R$ 91 bilhões (confira quadro), volume superior ao exigido pela bolsa – alguns participantes depositam mais por conveniência operacional. Numa situação extrema, se todas as posições em aberto fossem liquidadas de uma vez, os compromissos seriam honrados e restariam R$ 50 bilhões.

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