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Barras de ouro na linha do trem
Por Luciano Suassuna

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Pegar barras de ouro na linha do trem é a expressão que os americanos usam para negócios de lucro fácil em que a ganância deixa a pessoa surda para os riscos. Barras de ouro na linha do trem eram tanto os derivativos do subprime nos Estados Unidos quanto as operações de câmbio a descoberto realizadas por empresas brasileiras. Todo mundo que se meteu numa jogada desse tipo sabia que a locomotiva estava a caminho, mas quando o apito soou na manhã do dia 15 de setembro, com a quebra do Lehman Brothers, ninguém perdeu a cabeça no limpa-trilhos.

Dick Fuld, do Lehman, talvez seja a exceção que confirme a regra. O pânico da crise sistêmica gerou uma onda estatizante e criou uma cumplicidade entre bancos centrais e bancos quebrados cujos efeitos vão além dos bilhões de dólares, libras e euros a serem pagos pelos contribuintes.

Desde a vitória da solução Gordon Brown, está em curso um processo em que os maus gestores se deram bem e os bons continuam assustados. Os 37 bilhões de libras esterlinas (ou cerca de R$ 150 bilhões) da linha de socorro do Reino Unido a bancos em dificuldade – mediante o compromisso de que, pelos próximos dois anos, eles mantenham o nível dos empréstimos nos patamares de 2007 – eram a chamada idéia simples, com dinheiro mole e que permitiu ao mercado voltar a respirar. Mas criou vários casos emblemáticos de inversão de valores.

AGÊNCIA O GLOBO
No Brasil, a onda estatal permitiu ao PT reanimar convicções que se encontravam na UTI das idéias

Para ficar em apenas um, no pior momento da corrida bancária do início do ano, o Nothern Rock chegou a ter 6,7 bilhões de libras em depósitos no varejo. O pânico lhe tomou cerca de um terço dos 10,5 bilhões de libras registrados no final de 2007. Depois do socorro e da garantia do Estado, os depósitos pularam para 17,2 bilhões de libras. Ou seja, no lugar de ser punido pelo mercado, o Nothern Rock foi beneficiado pelo governo, o que estimulou correntistas a redirecionar depósitos. Essa diferença de 11,5 bilhões de libras (ou mais de R$ 40 bilhões, o suficiente para resolver a crise de câmbio das empresas brasileiras) é um dinheiro que deveria estar irrigando bancos criteriosos, que não foram à linha do trem pegar barras de ouro. Na prática, a lição que fica da intervenção é o prêmio à imprudência e a pena à responsabilidade.

No Brasil, a onda estatal chegou muito mais como vingança política do que como necessidade econômica. Aqui não houve crise sistêmica, mas um arrocho na liquidez. É como se, após seis anos de uma política liberal tocada a contragosto, todos os “istas” do governo (petistas, socialistas, economistas heterodoxos e assemelhados) pudessem enfim desfilar na avenida as velhas convicções que se encontravam na UTI das idéias. Todas elas se escoram na última moda da Inglaterra, a volta do Estado provedor, promotor e gerente da economia.

No atual caso brasileiro, esse pensamento não é nem antigo nem moderno. É apenas um contra-senso. O País enfrenta com mais tranqüilidade a pior crise de todos os tempos exatamente porque adotou os básicos princípios liberais. E só não se encontra mais forte ainda porque foi reticente em muitas das políticas. Se desde o início o governo Lula tivesse abraçado a causa das concessões e privatizações, o País estaria com várias grandes obras de infra-estrutura prontas. Elas teriam sido financiadas de maneira barata por conta da era do crédito farto, que agora chegou ao fim. Se tivesse adotado o rigor fiscal, coibindo aumentos na folha e alguns gastos perdulários dos últimos três anos, o impacto da desaceleração econômica que está por vir seria ainda menor. O que o País vai deixar de ganhar com a crise é culpa do liberalismo tímido do governo.

Numa economia de mercado, o Estado deve interferir apenas para desobstruí-lo, como na crise sistêmica de setembro, nas negociações de redução de tarifas ou num instante de crédito travado como agora. Atuar como provedor e gestor, redirecionando dinheiro público para setores em dificuldade ou elegendo grupos e empresas a serem beneficiados, equivale, do ponto de vista político, a colocar barras de ouro na linha do trem. É bom ficar atento ao apito, especialmente se o trem que estiver a caminho for o da oposição.

 

 


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