Memória
Fé e trabalho Homem religioso e simples, Arthur Sendas morre e deixa empresa de R$ 3 bilhões
ADRIANA MATTOS

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SEU ARTHUR TRANSFORMOU A SENDAS NUMA DOS MAIORES REDES DO PAÍS E DESDE 2003 APROVEITAVA A APOSENTADORIA TRANQÜILA
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COM A GRAÇA DE DEUS E proteção divina de nosso padroeiro São Sebastião e da Nossa Senhora da Rosa Mística, que Cristo lhe proteja." Era dessa forma, por meio de uma prece muito particular e carregada de boa dose de fé, que o empresário Arthur Sendas, da rede carioca Sendas, terminava as suas conversas sempre que podia. Discreto, ético e de trato fácil," seu" Arthur, 73 anos, morreu às 2h35 da madrugada de segunda-feira 20, no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, após ter sido baleado pelo motorista de seu neto. O funcionário Roberto Costa Junior foi procurar o empresário em sua casa na tentativa de buscar um empréstimo. A conversa durou dez minutos. Costa disse que os dois discutiram e um tiro acidental atingiu a cabeça do empresário. A polícia ainda investiga a versão. Na última entrevista concedida à imprensa, dada à DINHEIRO em março, "seu" Arthur decidiu falar por um motivo que o próprio considerava nobre: a morte do amigo Valentim dos Santos Diniz, fundador do grupo Pão de Açúcar. "Escreve aí: seu Santos era um homem de bondade infinita."
O acesso fácil do motorista ao empresário, que conseguiu subir ao quinto andar do elegante prédio Juan les Pins, no Leblon, onde Arthur e Maria Sendas moravam, não é de causar estranheza. Com a arma na cintura, Costa passou pela portaria, bateu na porta do apartamento pouco depois da meia-noite e foi atendido pela empregada. Foi até lá porque temia perder o emprego e tinha dívidas. O neto do empresário, para quem trabalhava, planejava se mudar para os EUA neste ano. Pronto para dormir, "seu" Arthur decidiu ver o que o funcionário queria. Era dessa forma que, normalmente, agia. Tratava tudo olho no olho Aos 16 anos, com a morte do pai, ele passou a comandar o negócio, hoje com mais de R$ 3 bilhões em faturamento anual. O rapaz transformou a mercearia na quarta maior supermercadista brasileira da década de 90, até ser vendida em 2003 para o Grupo Pão de Açúcar, que se tornou dono de 50% das operações.
"Seu" Arthur nunca gostou muito da idéia de se desfazer do que criou. Vendeu porque a concentração do mercado inviabilizaria o crescimento do negócio. "Vascaíno doente, em estado de coma", como dizia, a sua última grande batalha terminou há apenas cinco meses. Ele exigiu que o Pão de Açúcar pagasse R$ 700 milhões pelo resto das ações da rede fluminense por violação de contrato. Teve o pedido negado. Aos amigos mais próximos, dizia que não guardava mágoas. |