Vale do silício à brasileira Como, a partir de levantamento das deficiências do setor, o governo montou um plano de R$ 9,5 bi para criar 20 parques tecnológicos
GUSTAVO GANTOIS

O ANO É 1878. NOS ESTADOS UNIDOS, Thomas Edison inventa a lâmpada elétrica e dá início a um império de inovações. Um século depois, já transformada em GE, a multinacional faturou US$ 87 bilhões. Na mesma época, o Brasil ainda começava a investir em pesquisa científica. A diferença entre as duas passagens está sendo colocada à prova somente agora, com um programa do governo que pretende levar à linha de frente da tecnologia mundial idéias nascidas aqui. DINHEIRO obteve, com exclusividade, um estudo sobre as capacidades e desafios de instituir no Brasil parques tecnológicos nos moldes de grandes centros como o Vale do Silício, nos Estados Unidos. A proposta não é ousada, mas já é suficiente para indicar quais são as deficiências a serem superadas. Realizado pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e pela Anprotec e coordenada pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, o estudo traça um raio X dos 65 parques tecnológicos em funcionamento no País. A primeira conclusão é de que 55% deles não possuem um modelo de gestão definido e consolidado. Ou seja, não sabem exatamente para onde ir, muito menos em que investir. Por outro lado, o estudo sugere que pelo menos R$ 9,5 bilhões, do governo e de empresas, deveriam ser investidos para que o Brasil tivesse 20 parques de relevância. “O Brasil perdeu um tempo precioso”, disse à DINHEIRO o ministro Sergio Rezende, da Ciência e Tecnologia, que quer usar o trabalho como ponto de partida para as futuras ações do Ministério. “Mas, antes de começarmos a distribuir dinheiro, temos de estruturar os parques já existentes.”
O exemplo de maior sucesso é o Parque Científico e Tecnológico da PUC do Rio Grande do Sul, o Tecnopuc. Ali, convivem empresas como Dell, HP e Microsoft, interessadas principalmente na capacidade brasileira de driblar as dificuldades e apresentar soluções que não são vistas em outros lugares do planeta. A Dell, por exemplo, mantém apenas outros dois escritórios do tipo fora dos Estados Unidos: um em Bangalore, na Índia, e outro em Limerick, na Irlanda. O da Tecnopuc, no entanto, tem conseguido superar os rivais no desenvolvimento de softwares encomendados pela matriz americana. Vizinho, a Tlantic, do grupo português Sonae, cria programas de integração de varejo para empresas de todo o mundo. Tamanha procura conseguiu fazer com que o orçamento da Tecnopuc dobrasse em dois anos, de R$ 32 milhões em 2006 para R$ 65 milhões neste ano. “Poderíamos fazer muito mais se tivéssemos mais dinheiro”, diz Roberto Moschetta, diretor da Tecnopuc. “Em Bangalore, apenas uma empresa tem 35 mil funcionários. Aqui, no parque todo, temos 2,5 mil.” Mas os pedidos não param de chegar. A Petrobras viu na integração entre universidade e empresas de ponta uma forma de desenvolver soluções para o seqüestro de carbono, maior programa de pesquisa da empresa na área ambiental. “O grande problema é que o termo ‘parque tecnológico’ virou moda, o que atrapalha um pouco o nosso trabalho”, diz Moschetta.

Esse é um dos pontos que o governo pretende corrigir com a divulgação do estudo. Além de definir exatamente o que seria um parque tecnológico, o Ministério da Ciência e Tecnologia quer colocar mais dinheiro no setor. Além da Finep, que colocou à disposição em seu último edital R$ 450 milhões, o governo deve alocar outros R$ 650 milhões ao longo dos próximos cinco anos para a implantação de novos parques. O de Salvador e o de Belo Horizonte receberam R$ 20 milhões cada. A verba chamou a atenção dos pesquisadores, que apresentaram projetos orçados num total de R$ 5 bilhões. “Não vamos sair por aí criando parques, mas induzindo alguns de acordo com a aptidão natural da região”, explica Evando Mirra, gerente de inovação e tecnologia da ABDI. As multinacionais já notaram o movimento. Só falta as empresas nacionais perceberem o mesmo. |