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Como enxergar a economia brasileira
Nunca houve tantos sinais contraditórios como agora. O setor produtivo vai bem, mas analistas já apontam uma inflexão no mercado financeiro. O grande desafio é conectar um fenômeno ao outro

Por Leonardo Attuch

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DOIS MESES ATRÁS, O BRASIL batia às portas do paraíso. Havia acabado de receber o grau de investimento das agências classificadoras de risco e nada parecia capaz de deter a maré de otimismo. Hoje, embora o País não tenha descido ao purgatório, aquela certeza já não existe mais. Isso porque nunca houve tantos sinais contraditórios como agora. De um lado, o setor produtivo continua batendo recordes. As montadoras de automóveis, por exemplo, fecharam o primeiro semestre com vendas de 1,4 milhão de unidades, o que representa uma alta de 30% em relação a 2007. Ao mesmo tempo, a nuvem negra que estacionou sobre a economia global - e em especial sobre os mercados financeiros - parece mais ameaçadora do que nunca. Na semana passada, a Bolsa de Valores de São Paulo enfrentou alguns de seus piores pregões e devolveu, com sobra, todos os ganhos de 2008. Diante disso, em que economia se deve acreditar: a das linhas de produção aquecidas ou a do frágil papelório das bolsas? Na verdade, em ambas. A questão é saber quando e como uma irá se conectar à outra. "O contágio virá como sempre veio: pelo setor externo", prevê o economista Paulo Rabello de Castro, sócio da agência de risco SR Rating. Um sinal preocupante, que reforça seu argumento, foi a volta de um fenômeno que o Brasil não vivia havia muito tempo: fuga de capitais. Em junho, as saídas de recursos somaram US$ 5,5 bilhões. Se o fenômeno se aprofundar, o real deverá se desvalorizar. "Eu não me surpreenderia se o dólar pulasse a R$ 1,90 até o fim do ano", diz Rabello de Castro.

Qual seria a lógica disso? E por que a queda das bolsas já permitiria antever uma desvalorização do real? Na prática, o grande movimento de venda de ações está ligado à percepção dos investidores de que a inflação, puxada pela alta do petróleo e das commodities agrícolas e metálicas, se tornou um fenômeno global. Diante disso, mais cedo ou mais tarde, os bancos centrais dos países desenvolvidos e também dos emergentes terão de apertar suas políticas monetárias. "Até agora, as autoridades americanas conseguiram apenas camuflar o problema", diz o economista Paulo Guedes. "Para não morrer de recessão, decidiram morrer pela inflação, mas terão de agir para valer em algum momento." O que Guedes vislumbra é um cenário semelhante ao dos anos 80, em que o ex-presidente do Federal Reserve, Paul Volcker, subiu os juros para enfrentar uma outra crise americana, que também combinava inflação e estagnação. Se as taxas subirem nos Estados Unidos, como muitos esperam, o crescimento global cairá. E o dólar, que nos últimos meses foi a mais rejeitada das moedas, talvez inverta sua tendência de queda.

DANIEL WAINSTEIN/AG. ISTOÉ
EM ALTA No setor real, empresários, como Cortes, da Volks, estão abrindo vagas e já planejam exportar mais se o real se desvalorizar

Para o Brasil, esse quadro traria alguns problemas. Embora o País esteja bem preparado para enfrentar crises externas, com reservas superiores a US$ 200 bilhões, a política do real forte vinha sendo usada para segurar a inflação doméstica. "Essa nossa âncora cambial, em breve, perderá a validade", aposta Júlio Gomes de Almeida, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial e exsecretário de Política Econômica. Outro dado que o preocupa é a reversão acentuada dos números do setor externo da economia brasileira. O saldo comercial já caiu pela metade e, considerando todas as transações com o Exterior, o Brasil poderá fechar o ano com um déficit aproximado de US$ 30 bilhões. "O que vinha garantindo o nosso ciclo virtuoso na economia era a força do setor externo", diz ele. Quando se soma tudo isso, percebe-se que a margem de manobra do Banco Central para combater uma inflação ascendente - e que já se aproxima do teto de 6,5% da meta - vem se estreitando. "Essa inflação que está aí já reduz o poder de consumo da população", diz o economista do Iedi. Nos seis primeiros meses do ano, a cesta básica chegou a subir quase 30% nas principais regiões metropolitanas e o índice de confiança do consumidor brasileiro, medido pela FGV, recuou 6,5% em junho. O risco é que isso contamine as expectativas empresariais, reduzindo os investimentos em ampliação da oferta. Dentro do próprio governo, já se admite a redução do crescimento. O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, por exemplo, falou numa expansão do PIB de 4% - e não mais de 5%, como se previa anteriormente.

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