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O tempo fechou nas passarelas
Saída de Alexandre Herchcovitch da empresa I'M expõe o fracasso de um projeto ambicioso de gestão de marcas

MARCIA VAISMAN E RICARDO OSMAN

FOTO: FERNANDO DONASCI/FOLHA IMAGEM
TRIO DA I’M: Will, Mello e Monzani, que se dizem donos da Zoomp: mais marketing que resultado

A ATENÇÃO DO MUNDO DA MODA NO País recairá nesta semana sobre os destinos da Zoomp, renomada grife de roupas. Não porque esteja programado algum desfile. Ao contrário, não há nada de bonito nesta história e o clima é de tempestade: um fundo de investimento com sede no Rio de Janeiro, o Grupo Global, promete injetar capital para salvar a Zoomp de uma queda anunciada. No ano passado, a loja da marca no Shopping Iguatemi, em São Paulo, foi fechada por falta de pagamento do aluguel. E na quarta 2, veio o golpe mais duro. Alexandre Herchcovitch, diretor de criação da Zoomp e curador das grifes administradas pela empresa I’M (Identidade Moda), deixou o seu posto, e foi cuidar pessoalmente de suas marcas. A operação de salvamento da Zoomp ocorre três meses depois de a I’M anunciar, sob os holofotes da São Paulo Fashion Week (SPFW), um plano gigantesco, equivalente a “uma revolução” no setor: a aquisição de grifes como Zapping, Clube Chocolate, Fause Haten e Cúmplice, além de duas de Herchcovitch, todas subordinadas à holding. Além disso, prometeram um investimento de R$ 36 milhões em lojas e marketing do grupo. Uma luxuosa loja seria inaugurada até em Nova York.

FOTO: CLAUDIO GATTI
PLANO DESFIOU: os estilistas Fause Haten (à esq.) e Herchcovitch foram atraídos pelas promessas da turma da I’M. Herchcovitch deixou o barco na semana passada

No início, o mercado reagiu sem desconfianças aos planos anunciados por Conrado Will e Enzo Monzani, que se apresentam como donos da I’M, e por seu principal executivo, Vicente Mello – embora fossem desconhecidos no meio, à exceção de Mello que teve rápida passagem pela Fórum. Will e Monzani vieram da área financeira e de consultoria a empresas. Entretanto, logo o barco começou a fazer água. Paulo Junqueira, fundador da Cúmplice, que mantém fábrica e duas lojas em São Paulo, desmentiu o anúncio. “Fui surpreendido com a informação de que haviam comprado a minha marca”, diz ele. “Nunca vi nada parecido.” Esperou pela correção por parte da I’M, que não houve, e precisou ele próprio levar o caso ao mercado. O que havia era conversa para ampliar os canais de venda da Cúmplice.

A saída de Herchcovitch do projeto da I’M tem, portanto, enorme significado e revela a ponta de um iceberg que derrete rapidamente.

O estilista deixou o posto desiludido com as promessas não cumpridas pela turma da I’M, cada vez mais endividada, informaram especialistas do setor à DINHEIRO.

Mas era ele quem garantia alguma credibilidade aos planos ambiciosos da holding. Sem um nome forte, o sistema capenga. Além disso, o aporte anunciado pela Global Capital é para apenas uma das marcas.

Na quinta 3, diretores da Global negociavam com Mello, no Rio, o investimento na Zoomp, que deverá estar atrelado a “um novo modelo de gestão”; ou seja há mudanças à vista na relação da marca com a I’M.

“Este é um dos episódios mais lamentáveis da indústria da moda no País”, diz a consultora Celina Kochen, coordenadora do comitê de moda da Associação Brasileira de Franchising (ABF). “Vimos estilistas de renome serem iludidos por promessas.” Não foram poucos.

FOTO: AG. ISTOÉ

“Todo mundo acreditou nas intenções deles nos bastidores da SPFW”, diz Glória Kalil, especialista em moda. Somente com o tempo é que ficará claro qual o impacto desta tempestade sobre um mercado que vem recebendo crescentes investimentos. “Anunciado como caminho para maior profissionalismo na gestão de marcas, o episódio teve efeito contrário”, diz a diretora de marketing do Instituto Brasileiro de Moda (IBModa), Luciane Robic. As lições a serem retiradas são expressivas. “É um aprendizado e mostra que, em termos de gestão de marcas, estamos engatinhando no Brasil.” Procurada por DINHEIRO, a direção da I’M não quis se pronunciar.

Apenas divulgou nota em que procurava minimizar a gravidade dos fatos. Comparou a saída de Herchcovitch da holding com um “casamento” desfeito. A nota informava: “A I’M e Alexandre Herchcovitch decidiram morar juntos antes de assinar o contrato final”. Ah, bom. Assim pode? Resta é saber qual o tamanho da conta desta aventura e quem vai pagála. O mercado da moda manifesta a preocupação com uma piada. “A I’M (cujas iniciais significam, em inglês, ‘eu sou’) virou a I WAS (‘eu fui’).”