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Entrevista / Giuliano Donini
"A bolha da moda está prestes a estourar"
POR ROSENILDO GOMES FERREIRA

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A indústria brasileira de moda vive um período de grande efervescência. O processo de aquisição de grifes, por bancos e as chamadas gestoras de marcas, fez com que os ativos do setor alcançassem cotações até então inimagináveis. Um exemplo é a grife Forum, pela qual a AMC Têxtil teria desembolsado R$ 250 milhões. Pioneiro nesse processo, Giuliano Donini, presidente da Marisol, diz que tacadas desse tipo deverão ser cada vez mais raras. “Os ativos estão ficando caros para um segmento no qual a expectativa de retorno é demorada”, opina. Para ele, as grifes deverão, em breve, deixar de ser a bola da vez para os investidores financeiros. Nesta entrevista à DINHEIRO, ele também fala de seus planos à frente da malharia catarinense fundada em 1964 pelo pai, Vicente Donini, e cujas receitas somam R$ 420 milhões. A Marisol controla sete marcas, cujos destaques são Rosa Chá, Lilica, Tigor e Pakalolo.

DINHEIRO – Nos últimos meses, o controle de diversas grifes trocou de mãos. Um movimento que em muito se assemelha ao de bolhas surgidas no mercado em outras épocas. O que o sr. acha?
GIULIANO DONINIJá tivemos algumas sinalizações da perda de fôlego das empresas que entraram nesse segmento. O mundo da moda não vive apenas de louros. Ele tem potencialidades, mas também fragilidades. Um setor em que a imagem é um ativo muito forte, obviamente é mais suscetível a perdas. Mas acho que ainda teremos movimentos importantes nesse sentido.

DINHEIRO – E que fatores poderiam desencadear o estouro dessa bolha?
DONINI Existem hoje três grupos distintos de investidores nesse setor. Os profissionais oriundos do mercado financeiro, que esperam fazer dinheiro no mundo da moda a curto prazo; as empresas do setor, como a Marisol, que pretendem ampliar sua gama de atuação; e os conglomerados empresariais, que querem agregar valor ao negócio com a compra de uma grife. Esse cenário está gerando uma valorização excessiva de ativos em um segmento cuja expectativa de retorno se dá em um prazo bastante longo.

DINHEIRO – E que papel a Marisol pretende desempenhar nesse novo cenário?
DONINI A empresa tem se mostrado bastante inovadora e continuará seguindo essa tendência. Fomos os primeiros a operar como gestora de marcas, no início da década, um modelo que só entrou em evidência no final de 2007.

DINHEIRO – Apesar do pioneirismo, a Marisol não avançou nesse campo. Prova disso é que a última aquisição foi a Rosa Chá, em 2006. Falta fôlego à empresa?
DONINI Não se trata disso. É inegável que o mercado como um todo mudou. E a Marisol vem tocando inúmeros projetos que ainda não se consolidaram. Além da gestão de marcas, nós entramos em novos segmentos, como a produção de calçados, meias e peças em tricô, sem contar a rede de franquia multimarca One Store. Hoje, temos 140 lojas Lilica Ripilica e Tigor T. Tigre, 23 operações da Rosa Chá e 19 da One Store. Nossa meta é abrir mais 50 pontos-de-venda das diversas bandeiras até o final do ano.

DINHEIRO – Isso indica que a companhia, ao contrário dos concorrentes, vai apostar no crescimento orgânico em vez de adquirir novas marcas?
DONININão exatamente. Continuamos interessados em comprar marcas que agreguem valor à empresa. Nosso planejamento estratégico prevê a incorporação de pelo menos duas novas grifes ao portfólio. Contudo, nossa prioridade é consolidar os investimentos feitos até agora.

“Vamos trabalhar o potencial de marcas como a Rosa Chá, nos Estados Unidos e na Europa”

Desfile da Rosa Chá, grife administrada pela Marisol

DINHEIRO – A carreira internacional da Marisol será seu maior desafio à frente da empresa?
DONINI Não vou focar meu trabalho apenas no Exterior. Creio que o Brasil faz parte de uma economia globalizada e entendo que as políticas defensivas, por meio da manutenção da liderança em segmentos importantes no mercado local, nos garantem a musculatura necessária para enfrentar os desafios no Exterior.

DINHEIRO – A receita da Marisol encolheu 4,3% para R$ 420,4 milhões em um ano de forte crescimento da economia. Aonde a empresa errou?
DONININós não fizemos a lição de casa. A diversificação fez com que a empresa ficasse pesada. Manobrar um transatlântico é mais difícil que uma lancha. Por conta disso, ao longo de 2007, fizemos uma série de mudanças na estrutura de produção e adotamos outras medidas que culminaram na sucessão da presidência. Também reduzimos de sete para cinco o número de diretorias. Com isso, queremos ganhar agilidade no processo decisório e cobrar resultados.

DINHEIRO – E os resultados vão aparecer neste ano?
DONININosso grande objetivo é efetivar a meta de crescer 19%. A partir daí, iremos preparar a Marisol para um processo de crescimento mais acelerado nos próximos anos. A meta para 2008 é desafiadora, mas o que queremos, na verdade, é colocar a empresa em um novo patamar.

DINHEIRO – A China é uma ameaça para quem faz moda ou somente para quem produz commodities?
DONINIA China ou qualquer outro país do Sudeste Asiático irão sempre representar uma forte concorrência. A indústria do vestuário sempre foi nômade porque demanda mão-de-obra intensiva. A tecnologia é importante. Porém, jamais substituirá a costureira. A China representa uma concorrência porque se mostrou um país que focou a indústria de vestuário como um importante setor da economia. Ao contrário do que acontece no Brasil.

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