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A nova paixão de Condoleezza
A secretária americana encantou-se pelo etanol, que pode ser uma arma contra o "inimigo" Hugo Chávez

GUSTAVO GANTOIS

ROBERTO CASTRO/AG. ISTOÉ
CONDIE E AMORIM: sorrisos abertos e pedidos de apoio na luta contra as Farc
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QUEM VISSE A FOTO DE CONDOLEEZZA Rice e Celso Amorim, aos sorrisos escancarados, pensaria que a toda-poderosa e o chanceler estavam ao som da canção romântica "Love is in the air". E de fato Condie tem uma nova paixão: o etanol brasileiro. É curioso que essa brasa tenha sido acesa justamente no coração da mulher que conduziu sangrentos anos de guerra no Oriente Médio. Batalhas que elevaram o petróleo a uma cotação estratosférica e que, ironicamente, levaram o império a olhar com outros olhos para o combustível desenvolvido no Brasil. Na quinta-feira 13, mesmo com uma agenda repleta de declarações sobre o conflito envolvendo a Colômbia, o Equador e as Farc, Condie não deixou de tratar sobre o acordo que os Estados Unidos mantêm com o Brasil para o desenvolvimento de biocombustíveis. Ficou ainda mais contente ao ouvir do chanceler brasileiro que os projetos piloto que os dois países decidiram implementar na América Central estão indo de vento em popa. O melhor deles, segundo Amorim, é o de El Salvador. "Em breve, eles terão a primeira usina de etanol do país", disse o chanceler à secretária de Estado. "Mas ainda acho que vocês poderiam olhar com mais atenção para o programa que desenvolvemos no Brasil." E Condie está de olho. Assim como outros membros do governo americano, entre eles o presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke.

É justamente o círculo econômico que mais tem se aproximado do programa brasileiro de combustível. Mais preocupado com as contas americanas do que com o meio ambiente, Bernanke exortou seu governo a reduzir a tarifa de US$ 0,54 por galão que incide sobre o etanol brasileiro para ajudar a diminuir a pressão sobre o preço dos alimentos nas terras do Tio Sam. Foi um resgate ao fantasma da agroinflação, que ainda atemoriza os americanos, principalmente por conta do milho utilizado na fabricação do álcool combustível de lá. "Sou a favor do livre comércio e creio, por exemplo, que permitir a entrada do etanol brasileiro reduziria os custos nos Estados Unidos", disse o presidente do Fed ao Comitê Bancário do Senado norte-americano. "Temos áreas que eram plantadas com soja e foram transferidas para o milho, então existe algum efeito no preço dos alimentos proveniente da conversão para o uso de energia". É uma opinião que encontra respaldo em gente ainda mais próxima à Casa Branca. Co-presidente da Comissão Interamericana de Etanol e irmão do presidente George W. Bush, Jeb Bush é um dos maiores entusiastas da entrada brasileira no mercado americano. "Para este mercado ser mais robusto e profundo, é preciso acabar com a tarifa", disse Bush à DINHEIRO. "O grande problema é a campanha que a indústria do petróleo tem feito sobre o consumidor americano. Eles não entendem que não só se consome etanol onde se produz."

Seguindo essa linha, mais do que aliviar a pressão inflacionária, parcela considerável dos americanos quer diminuir a fatura que paga pelo petróleo que ainda inunda o mercado dos Estados Unidos, mas está ficando cada vez mais escasso. No mesmo dia em que Condie desembarcou no Brasil, o barril em Nova York ultrapassou todos os recordes já registrados e bateu em US$ 110,33. Foi o suficiente para a embaixada americana divulgar que Condie pediu ao governo brasileiro a criação de uma "força-tarefa de sustentabilidade dos biocombustíveis, para defender e promover a adoção do etanol e do biodiesel". O tom foi bom, mas o momento, errado. No mesmo dia, o grupo paulista Jaraguá Participações e o fundo inglês TEP anunciaram que, em quatro meses, entrará em funcionamento uma das maiores usinas de biodiesel do Brasil, em Porangatu, Goiás. O investimento, de R$ 256 milhões, deverá gerar 830 milhões de litros de combustível totalmente direcionado ao mercado europeu. Condie deixou o Brasil sem saber da notícia. Seu sorriso permaneceu intacto.

ORLANDO BRITO
NO ITAMARATY: alta do petróleo e da inflação pode levar americanos a reduzir a tarifa do álcool brasileiro