Alugam-se softwares A locação de programas provoca dores de cabeça em gigantes como Oracle e SAP e as obriga a oferecer o mesmo serviço
ROBERTA NAMOUR
Quando em 1999 o então desconhecido americano Marc Benioff surgiu com a idéia de se alugar serviços de software, sua iniciativa foi recebida com indiferença, quase descaso. Menos de dez anos depois, sua empresa, a Salesforce, tornou-se uma pedra no sapato de Microsoft, Oracle e SAP. E provocou um movimento raro no mercado – essas gigantes foram obrigadas a lançar serviços para concorrer diretamente com a Salesforce e tentar barrar sua ascensão.
Pelo modelo de Benioff, o acesso ao software é feito via internet com uma cobrança mensal, como ocorre com o consumo de água e de luz. Assim, a compra de licenças de softwares e de servidores para sua instalação tornase dispensável. O sucesso desse modelo gerou uma situação curiosa no Brasil. De um lado, a Salesforce, com mais de um milhão de assinantes de 38 mil clientes no mundo todo, garante que a chegada do software como serviço no País se deve a sua maior representante na América Latina, a Valuenet. O mérito seria do indiano Sanjay Agarwal, jovem empreendedor que afirma ter lançado o conceito por aqui há cinco anos. Já a Oracle se diz precursora do ramo com seu Oracle on demand, também há cinco anos no mercado. A empresa afirma atender mais de 20 mil usuários desse serviço no País.
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“A tradicional venda de licenças tende a desaparecer nos próximos anos”
SANJAY AGARWAL, DA VALUENET |
Desacordos à parte, a modalidade parece ter se transformado definitivamente em um negócio de vulto. Estima- se que esse serviço tenha movimentado cerca de US$ 5 bilhões em 2007, mas, de acordo com a consultoria Gartner, esse valor chegará a US$ 11,5 bilhões até 2011, o equivalente a 22,1% do mercado de software corporativo. O impulso vem da redução de custos que o modelo pode proporcionar. As grandes fabricantes de programas não divulgam valores, mas sabe-se, por exemplo, que a SAP vendeu recentemente licenças a um dos maiores grupos industriais do Brasil por cerca de US$ 25 milhões. Já o pacote completo de “aluguel” de software da Salesforce sai por US$ 65 mensais, por usuário. Além disso, atualizações e novas versões do sistema fazem parte da cobertura mensal. Para Enrique Perezyera, presidente da Salesforce na América Latina, a redução de custos pode bater em 50%. Outro ponto positivo seria a mobilidade. “Nossa empresa precisa ter um software acessível a qualquer momento, em qualquer lugar. Além de ser seguro, esse sistema facilitou muito nosso processo interno”, garante Bernardo Queima, gerente de parcerias da Icatu Hartford, que há mais de quatro anos usa o conceito.
Agarwal, da Valuenet, acredita em mudanças radicais no mercado. “A tradicional venda de licenças tende a desaparecer nos próximos anos”, afirma ele. “As grandes companhias estão em um impasse. Se optarem por oferecer o software como serviço, canibalizam seu próprio mercado. Como iriam se sentir os clientes que hoje pagam milhões pela licença de software?” No final do ano passado, a Microsoft adotou o novo modelo, mas, é óbvio, mantém a venda de licenças, mesmo caminho seguido pela Oracle. “Sempre vão existir os dois modelos. Nem todos os clientes têm as mesmas necessidades”, diz Jack Sterenberg, diretor de serviços avançados de suporte. Algumas empresas teriam estruturas tão complexas que não poderiam abrir mão do próprio servidor. Em carreira solo ou aliado ao antigo sistema, o fato é que o software como serviço chegou mesmo para ficar. Em 2007 a gigante alemã SAP também aderiu à modalidade e criou o SAP Business ByDesign, em vigor na Alemanha e nos Estados Unidos, com uma assinatura mensal de US$ 149/mês por usuário. |