Para que servem os economistas? Por Octávio Costa
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| "Os cursos de economia estão esvaziados. Afinal, como confidenciou um diretor de faculdade, hoje em dia ninguém mais quer ser um Mário Henrique Simonsen" |
Hoje, com a inflação sob controle, o risco Brasil em baixa e as contas externas em ordem, eles caíram em desuso. Mas houve tempo em que os economistas ocuparam o centro das atenções. Sem saber o que fazer diante da persistente alta dos preços e da desvalorização da moeda da noite para o dia, os brasileiros palpitavam sobre economia com a mesma paixão com que comentam o futebol. Naqueles idos, os responsáveis pela política econômica andavam na boca do povo. Quando acertavam, eram incensados. Quando erravam, mal podiam andar na rua. Quem dava as cartas, de qualquer modo, eram os economistas. E um símbolo dessa época foi Mário Henrique Simonsen. Professor da Fundação Getúlio Vargas e ministro da Fazenda dos governos Geisel e Figueiredo, Simonsen era irreverente ao extremo. Gostava de ópera, dos amigos e de uísque e, acima de tudo, de dar aulas. Preferia ser chamado de professor. Quando foi convidado por Geisel em 1974, correu que o general exigiu que ele mudasse de hábitos. Uma repórter ansiosa subiu a serra de Teresópolis para ouvir do futuro ministro quais concessões ele faria para ocupar o cargo. Simonsen recebeu-a na porta da casa de campo, com uma toalha amarrada na cintura e um copo de uísque na mão. A repórter desistiu da pergunta. Quando saiu do governo Figueiredo, após seis meses, perguntaram-lhe se estava decepcionado. Sua resposta: "Não, foi o suficiente para mais uma linha no meu currículo."
Simonsen deixou a Fazenda, em 1979, sob pressão de seu dileto inimigo Delfim Netto. Enquanto o carioca era alto e corpulento, Delfim era baixo e gordo. Um era descontraído e amante dos prazeres da vida, o outro muito mais recatado, mas também de humor ferino. Os dois tratavam- se educadamente, mas se atacavam pelas costas. Homem de bastidores, Delfim aceitou ser ministro da Agricultura de Figueiredo, certo de que Simonsen não resistiria às queixas dos empresários contra o arrocho monetário. Acertou na mosca. Ambos, porém, conduziram a economia com mão de ferro e desafiaram a opinião pública, alterando, artificialmente, os índices de inflação. Não se intimidaram em mexer no termômetro para baixar a febre.
Eram ortodoxos, mas recorreram a regras extracampo. Fizeram o possível, mas não tiveram êxito. A inflação só foi dominada duas décadas depois pelos economistas da PUC-Rio.
Delfim e Simonsen pertenceram à corrente liberal de Eugênio Gudin, Octavio Gouvêa de Bulhões e Roberto Campos. Doutor Gudin, o decano dos conservadores, foi reverenciado até sua morte, aos 99 anos, em 1996. Participou da reunião de Bretton Woods, em 1944, e foi ministro da Fazenda de Café Filho, por oito meses. Nas entrevistas no fim da vida, contava que passou a virada do século XX em Paris, onde viu Santos Dumont em ação. Mas chamava os governadores de presidentes e os Estados de províncias. O interlocutor, contudo, estava diante de um monumento. Embora não tenha chegado ao poder, o pensamento econômico à esquerda também foi marcante. Destacaram- se, entre todos, Celso Furtado e Maria da Conceição Tavares.
O resistente Celso criou a Sudene e empenhou sua energia na denúncia à concentração de renda e às desigualdades regionais. A combativa Conceição é autora de um clássico sobre a substituição de importações. O atual presidente do BNDES, Luciano Coutinho, bebeu nessas fontes. E o ex-ministro Pedro Malan, expoente da PUC-Rio, sempre admirou Conceição, ou Ciça para os íntimos.
Tudo isso é história. Atualmente, os cursos de economia estão esvaziados. Os jovens investem em alternativas condizentes com a realidade do País. Hoje, o Brasil valoriza mais os homens de negócio do que os formuladores de teoria econômica - e isso é saudável. Não por acaso, no vestibular deste fim de semana na UnB, há 1.305 candidatos ao curso de administração e somente 383 às ciências econômicas. No início do ano, na USP, o fosso também foi enorme: 5.644 candidatos à administração e 2.257 ao curso de economia. Sem crise à vista, o mercado busca gente qualificada para identificar oportunidades de lucro. Os tempos mudaram e as portas se fecharam para os economistas. "Ninguém mais quer ser um Simonsen", já disse um diretor das faculdades IBMEC. |