O safári dos negócios As empresas brasileiras descobrem as boas oportunidades para ganhar dinheiro na África
Por Daniel Leb Sasaki
Qual é a primeira coisa que lhe vem à mente quando ouve falar em Angola? Guerra, miséria e Aids? Nada disso. A antiga colônia portuguesa é hoje a economia que mais cresce na África, com taxas chinesas. Quem já descobriu essa face da economia africana é um punhado de empresas brasileiras que viram no continente uma boa oportunidade para investimentos. Petrobras e Odebrecht chegaram há décadas. Mas agora vive-se uma segunda fase: pela porta aberta pelas pioneiras entram companhias de áreas como pesquisa, alimentação e transportes. Não há dados consolidados sobre investimentos brasileiros na África, mas o volume de comércio com a região dá uma idéia. Nos últimos dez anos, o intercâmbio cresceu cinco vezes e atingiu US$ 15,5 bilhões em 2006. “Há uma idéia equivocada sobre esses países”, diz Eduardo Moraes, sócio da Latinex, consultoria no setor de exportação, cujos serviços chegam a oito países africanos. “Mais do que produtos, eles querem é novidade.”
Por isso, grupos de tecnologia têm se destacado na tropa brasileira que desembarca na África. A Embrapa abriu no ano passado uma base em Acra (Gana), onde centralizará as operações no continente. De lá, atuará nas áreas de pastagens, grãos, melhoramento genético de animais e pecuária de carne e leite. Seu maior ativo? Capital intelectual. “As potências mundiais não têm nosso know-how para trabalhar com a produção de alimentos, direcionada para a questão da fome e miséria”, aponta Silvio Crestana, presidente da Embrapa. A Nigéria, por exemplo, está de olho na experiência da estatal em combustíveis alternativos. No encalço dessas companhias, a OceanAir está estreando no mercado internacional em junho, com vôos para Luanda e Lagos. A BRA deve responder abrindo uma linha para Marrocos e a TAM, com a assinatura de um acordo operacional com a South African, da África do Sul.
Muitos investidores se afastam do continente, alegando que “não há mercado por lá”. Pois, se não há, por que não criar? A Livraria Nobel decidiu inaugurar uma atividade até então inexistente em Angola: o mercado editorial. “Apesar da pouca escolaridade e dos índices socioeconômicos baixos, há uma elite que não encontra livrarias no país”, diz Eduardo Pires, diretor de expansão do grupo. Um detalhe sobre a livraria: ela funcionará no Belas Shopping, construído pela Odebrecht na capital do país. Foi o mesmo conceito que levou um representante do Grupo Mabel, fabricante de biscoitos, a fazer um périplo por Egito, Marrocos e Tunísia, em parceria com a Apex e a Câmara Árabe-Brasileira para prospectar novos mercados. A Mabel já vende para Angola, África do Sul e Cabo Verde, que representam 20% de suas exportações.
Os brasileiros, porém, não “descobriram” a África sozinhos. Europeus, norte-americanos e asiáticos também desembarcaram por lá, inclusive com produção local. Estudo recente realizado pela Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad) aponta que os chineses atuam em 80% dos países africanos, com cerca de 800 empresas. Na década passada, seus investimentos não passaram de US$ 20 milhões. Em 2005 chegaram a US$ 1,6 bilhão. E o comércio, que no ano 2000 ficou em US$ 11 bilhões, hoje está na casa dos US$ 60 bilhões. Como enfrentar a competição? Especialistas dizem que a estratégia é agregar valor e investir na qualidade. “O Brasil tem se apresentado como uma opção vantajosa, na relação custobenefício e por sermos mais flexíveis na hora de barganhar”, avalia Michel Alaby, secretário-geral da Câmara Árabe-Brasileira. “Além disso, eles adoram os brasileiros.” |