O bicho-papão do apagão Por Joaquim Castanheira
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| Fábrica da continental: planos de expansão adiados |
Há alguns anos, empresários, economistas, autoridades e a população em geral vivem sob a ameaça do temível apagão logístico - ou seja, o colapso de portos, aeroportos, estradas, energia elétrica, entre outras áreas. Agora, a notícia: é bobagem esperar por esse dia, pois ele já chegou. O noticiário dos últimos dias está repleto de sinais do advento dessa nova era. O caos permanente nos aeroportos brasileiros é um exemplo. A Vale do Rio Doce, em um pronunciamento de seu presidente, Roger Agnelli, advertiu que limitará seus investimentos para os próximos anos, principalmente na área de alumínio. O motivo, segundo ele, é a ausência de garantias de que haverá energia elétrica suficiente para viabilizar a produção a partir de 2012. Dias antes, o próprio presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, ouviu de dirigentes da Continental, uma das maiores fabricantes de pneus do mundo, que a empresa havia desistido de expandir sua fábrica no Brasil porque o dólar não garantiria retorno financeiro nas exportações, principal destino de seus produtos brasileiros. Ué, agora o câmbio é um item da logística brasileira? Não, não é. Mas o empresário Antônio Ermírio de Moraes, em seu estilo direto e transparente, definiu bem essa questão de real valorizado. Em sua opinião, o câmbio não atrapalha necessariamente o comércio externo. O que prejudica mesmo são os gargalos na infra-estrutura e a carga tributária obscena e as taxas de juros estratosféricas. No Brasil, o dólar mais forte de anos atrás compensava a falta de uma infra-estrutura que dote o País de competitividade.Assim, quando empresários choram a valorização do real estão, no fundo, velando a logística moribunda no território nacional.
Esperado há anos, o colapso na infra-estrutura já está aí. Para se livrar dele, não adianta esperar apenas pelo governo
O próprio Ermírio de Moraes deu uma outra pista importante sobre o assunto. A melhoria da competitividade das companhias brasileiras não depende apenas de decisões tomadas em Brasília. Segundo ele, o grupo Votorantim se preparou internamente para evitar que a desvalorização do dólar inibisse suas exportações. Enfim, Ermírio de Moraes faz a lição de casa. É comum ouvir executivos e empresários bradarem a máxima de que "as empresas brasileiras são competitivas até o momento em que cruzam os portões de suas fábricas" - uma alegação de que suas linhas de produção apresentam os mesmos níveis de produtividade dos países desenvolvidos. O problema, 100% dele, estaria nas estradas esburacadas, nos portos congestionados, nos aeroportos acanhados, e assim por diante. Meia verdade. Embora tenham avançado como nunca nos 15 últimos anos, as empresas brasileiras ainda podem obter ganhos significativos em qualidade e produtividade. O executivo Manfred Stanek, presidente da filial brasileira da Proudfoot Consulting, uma das maiores empresas de consultoria do mundo, lembra o caso de um cliente cuja produtividade do processo logístico cresceu 15%. Isso sem investir em novos equipamentos ou instalações - apenas padronizando procedimentos, criando rotinas, treinando funcionários e traçando rotas mais eficientes.
Há dois motivos para que os empresários e executivos brasileiros não enxerguem a necessidade de aprimorar seus processos e métodos de trabalho. Primeiro: responsabilizar apenas a precária infra-estrutura é se livrar da culpa por eventuais resultados negativos em sua empresa. "O demônio são os outros", já dizia o filósofo francês Jean Paul Sartre. Segundo: o País vive um cenário de mercado aberto há pouco mais de 15 anos, tempo insuficiente para derrubar uma cultura empresarial de décadas, baseada no paternalismo do Estado. No fundo, até hoje, homens de negócios brasileiros sonham com uma ajudinha de Brasília ou um dinheirinho do BNDES. Para acender uma luz no que possa indicar o caminho para o fim do apagão logístico é preciso muito mais do que isso - e não é só o governo que precisa pôr as mãos na massa.
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