Personagem
Edemar em seu castelo Recluso em sua mansão, o banqueiro que já foi o grande mecenas das artes plásticas no Brasil colhe as primeiras vitórias judiciais e prepara sua vingança contra o Banco Central
Por Leonardo Attuch
Há uma galeria de mulatas seminuas no pequeno corredor que leva ao escritório do empresário Edemar Cid Ferreira, em sua mansão no bairro do Morumbi, em São Paulo. Grandes fotos emolduradas sobre o Carnaval carioca compõem a exposição em cartaz na casa do ex-banqueiro. Nas salas, há pilhas e mais pilhas dos livros de arte que ele patrocinou enquanto esteve à frente da Brasil Connects e da Fundação Bienal. Num pequeno quadro, há também uma nota falsa de um dólar com o rosto do presidente americano, George W. Bush, e a frase "One Deception". Encastelado nesse ambiente, Edemar trabalha quase 12 horas por dia. Reúne-se com advogados, estuda os seus processos e aconselha-se com os empresários que continuaram amigos, mesmo após a quebra do Banco Santos, em novembro de 2004. Obstinado, Edemar prepara o revide contra aqueles que considera seus algozes: os diretores do Banco Central responsáveis pela intervenção. "Eles estão numa posição delicada porque o patrimônio do Santos hoje é positivo", é o que o ex-banqueiro tem dito aos confidentes mais próximos.
DINHEIRO visitou sua intimidade. Ouviu amigos, colaboradores e advogados daquele que foi o grande mecenas e um dos empresários mais poderosos do País.Seu novo retrato revela um homem ferido por duas prisões, mas ainda vaidoso e apegado aos rituais de poder dos tempos áureos do Banco Santos. Todos os dias, Edemar se veste impecavelmente, em ternos risca de giz, antes de descer do quarto ao escritório. Mantém uma alimentação frugal e, a cada três horas, seu mordomo lhe serve porções de frutas. Edemar continua vivendo como banqueiro e acredita piamente que será capaz de renascer das cinzas, mesmo tendo sido acusado de causar um rombo de R$ 2,9 bilhões na praça, que gerou processos por gestão fraudulenta, formação de quadrilha, evasão de divisas e desvio de recursos públicos - no
momento mais dramático de sua vida,
no Natal de 2006, ele dividiu a cela de
um presídio com seu filho Rodrigo.
Edemar, no entanto, já não olha para trás. E tem conseguido colher suas primeiras vitórias jurídicas nos processos em que os clientes do Banco Santos questionavam o valor de suas dívidas em função de uma suposta "reciprocidade" que havia nos empréstimos. Em síntese, dizia-se que o banco desviava recursos públicos, fazendo repasses do BNDES. Numa operação de crédito, o tomador era "forçado" a pagar um pedágio, comprando debêntures de empresas ligadas a Edemar. Nessa "reciprocidade", uma empresa que tomasse um crédito de 100 levava 80 ou 70 para o seu caixa e aplicava o restante nas tais debêntures - no entanto, continuava devendo os mesmos 100. Por isso, os clientes foram à Justiça. Até agora, porém, nenhum tribunal acolheu os argumentos dos devedores. Num dos acórdãos, de um litígio entre a Frangosul e o Banco Santos, o juiz foi claro: "Não pode queixar- se do ato que o prejudica, como emanado de erro e coação, o homem instruído, que vive em meio civilizado e dispõe de meios e recursos para informar-
se da ilegalidade desse ato."
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