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ANTÔNIO CARLOS REGO GIL
"Sem reduzir tributos não se cria tecnologia"
Presidente da CPM, uma das maiores empresas de software do Brasil, diz que falta apenas uma melhor política fiscal para o Brasil competir com a Índia no mercado de serviços de tecnologia


Por João Prado

No cenário de desemprego e necessidade de um crescimento sustentável do Brasil, qual notícia poderia ser tão animadora como um empresário que quer criar uma indústria que fature US$ 5 bilhões anualmente até 2010, mas que precisa formar profissionais urgentemente para atingir essa meta? O nome por trás do princípio é Antônio Carlos Rego Gil, presidente de uma das maiores empresas de tecnologia do País, a CPM, e presidente do conselho da Brasscom (Associação Brasileira das Empresas de Software para Exportação). Formado em engenharia de produção pelo ITA, Rego Gil era o rapaz que desenhava aviões para a Embraer quando a empresa ainda não era uma das principais marcas da aeronáutica no mundo. Tudo por hobby. Agora, ele projeta a criação da “Marca Brasil de TI”, que tem como objetivo mostrar para os brasileiros e para os estrangeiros como o País pode caminhar com as próprias pernas na exportação de software e se tornar uma verdadeira potência no setor. Em outras palavras, o experiente executivo quer que as empresas brasileiras abocanhem uma parcela maior do US$ 1,2 trilhão movimentado com a terceirização de serviços de tecnologia no mundo. O experiente executivo recebeu a reportagem da DINHEIRO e autenticou com palavras o porquê da sua fama de “brasileiro otimista”.

DINHEIRO – Como a indústria brasileira exportadora de software recebeu o anúncio do PAC, que não traz os benefícios esperados pelo setor, como a desoneração tributária?
ANTÔNIO CARLOS REGO GIL
– Primeiro eu acho que a simples existência do PAC irá trazer opiniões distintas. Eu pessoalmente acredito que a existência de um programa já faz todos os setores olharem para a mesma direção. No que diz respeito à indústria de software e serviços, o setor não foi contemplado ainda pelo programa, o que não implica que não será. Temos tido um bom relacionamento com os ministros Furlan (Luiz Furlan, do Desenvolvimento) e Sérgio Resende (da Ciência e Tecnologia). Há dois anos a Brasscom tem trabalhado próxima ao governo e tenho confiança de que o assunto poderá ser tratado de maneira independente.

DINHEIRO – A MP do Bem fixou a desoneração tributária para as empresas que exportassem 80% de sua produção. A maior parte das empresas de tecnologia do País não aderiu à medida. O que houve? A meta é difícil de ser alcançada?
REGO GIL
– Eu espero que não seja difícil de ser alcançada. Mas, hoje, ela não corresponde à realidade. O Brasil ainda exporta muito pouco. A MP foi bem-intencionada, mas não funciona. Ao menos para quem for criar outra empresa somente para exportação. Isso tem implicações tributárias. Acabou que ninguém aderiu.

DINHEIRO – Qual o perfil da indústria mundial de software?
REGO GIL
– O mercado mundial de serviços de tecnologia atingiu no ano passado US$ 1,2 trilhão. Desse total, US$ 700 bilhões foram de serviços terceirizados. É muita coisa. Todas as empresas estão preocupadas em como reduzir o seu custo com TI. Com a internet e a facilidade das comunicações globais, alguém percebeu que nos Estados Unidos se pagavam 70 dólares pela hora do programador e na Índia se pagavam 40 dólares. E tanto faz se o serviço vem do outro lado da rua ou de Bangladesh. Se tiver qualidade, eu posso fazer o mesmo serviço por um terço do preço.

DINHEIRO – Como o Brasil entra nessa história?
REGO GIL
– US$ 40 bilhões dos serviços terceirizados no mundo foram mandados para fora do país de origem, sendo que US$ 30 bilhões somente para a Índia. Aí vem a questão que nos interessa: as empresas precisam concentrar todo o serviço na Índia? A resposta é não. Elas precisam diversificar. Primeiro, por um problema de segurança. É prudente que você não ponha todos os seus ovos na mesma cesta. Segundo, porque os preços da Índia, há 15 anos atuando forte no setor, estão começando a aumentar. Os profissionais de lá estão muito requisitados. O mundo precisa de alternativas para o outsourcing. As três são China, Rússia e Brasil. Entre e essas opções, o Brasil desponta. As culturas são parecidas. Temos aqui pessoas que vieram da Itália, da Alemanha e de outros lugares, o que facilita o relacionamento. Temos um sistema judiciário que, por mais que nós reclamemos, existe e segue o modelo ocidental.

DINHEIRO – Isso é suficiente para bater Índia e Rússia?
REGO GIL
– A principal questão é que nós estamos falando de um serviço que o Brasil faz muito bem, há 45 anos. Exemplo: o sistema bancário daqui. Por conta das épocas de hiperinflação, os bancos brasileiros desenvolveram sistemas de TI que ainda são os mais avançados e modernos do mundo. Não existe no mundo um país como o Brasil, que faz 22 milhões de formulários de imposto de renda online. Também não existe um lugar onde 120 milhões votam nas eleições para dez mil candidatos em cinco mil localidades e os resultados são conhecidos no mesmo dia. Falta exportar, o que nunca foi nossa preocupação.

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