Foto: Roosewelt Pinheiro/ABr
André Linn/AE
Guido Mantega: usou 84 slides em 40 minutos para provar as virtudes do PAC
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No reino do Power Point
Recurso da informática tornou-se vício entre executivos e homens públicos em apresentações de planos de ação.


Por octávio costa

Aconteceu durante a apresentação do PAC no Palácio do Planalto. Chamado pelo presidente Lula para explicar o conteúdo do ambicioso programa, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, após uma rápida introdução, deu início à sua apresentação. Na verdade, manteve-se em silêncio aguardando que os dois telões com imagens do Power Point dessem sinal de vida. Sem solução à vista, pediu auxílio: “Um técnico, por favor!” Não foi preciso. O sistema entrou no ar, o ministro suspirou aliviado, acionou o notebook e pôde levar adiante sua longa exposição de 40 minutos, com o auxílio de 84 imagens. Mantega fez bem em esperar: no mundo maravilhoso do Power Point, tudo é perfeito.

As contas todas fecham e os ciclos de crescimento se cumprem no devido tempo. Os juros caem, os investimentos acontecem e a demanda fica aquecida, sem risco de repique inflacionário. Os telões não deixam margem a dúvida: o sucesso do PAC está garantido. Se dúvida restasse entre os 25 governadores presentes, a apresentação da ministra Dilma Rousseff, também lastreada em imagens muito bem definidas, mostrou nos mínimos detalhes em que setores e regiões do País o governo Lula pretende aplicar R$ 503 bilhões nos próximos quatro anos. A exposição de Dilma consumiu mais uma hora e quase novas dezenas de slides.

Quem acompanhou a apresentação do PAC ficou com uma pulga atrás da orelha. E se o Power Point falhasse? O que fariam os dois ministros de Lula? Deixariam a exposição para outra oportunidade? Evidentemente, não. Seriam forçados a fazer o que sempre se fez nos tempos em que não havia o recurso eletrônico. Teriam de convencer pelas palavras e não pelas imagens. Em dias não tão distantes, a clareza vinha das idéias, e não das telas computadorizadas. E nem por isso os executivos, públicos ou privados, tinham dificuldade em apresentar suas estratégias e seus planos de ação.

Mas justiça se faça à informática: as apresentações com powerpoint são mais convincentes. Em slides coloridos, o planejamento fica menos etéreo. Ganha mais solidez. O efeito positivo só não acontece quando o expositor se limita a repetir o que está demonstrado na imagem. Aí, a impressão é de que se procura convencer o espectador a golpes de repetição. As palestras, então, tornam-se monótonas e aborrecidas. E o moderno Power Point, um recurso inútil e irritante.
Que não se faça juízo errado: não foi esse o caso das exposições de Guido Mantega e Dilma Rousseff.

A pergunta, de qualquer forma, fica no ar: é possível viver sem a ajuda do powerpoint? Na mesma linha de preocupação, torna-se cada vez mais forte a dependência da humanidade para com os telefones celulares. É espantoso o comportamento de alguns executivos ao entrar em aviões. Passam pelos fingers com os aparelhos ao ouvido, sentam-se sem interromper a conversa, pouco se importando com quem estiver ao lado, e só desligam a pedido da aeromoça quando o avião já está na cabeceira da pista. Assim que chegam ao destino, mal o avião aterrissa, retomam a ligação. Se existe risco de incêndio, não estão nem aí.
A falta de respeito ao próximo é a mesma nos espaços públicos. Os negócios e os assuntos particulares sempre são urgentes nos teatros, nos cinemas e nos restaurantes. As ligações não podem esperar. E os incomodados que se retirem. O que faziam essas criaturas quando não existiam os celulares? Como sobreviviam? Perdiam todas as janelas de oportunidades? Foram à falência porque não tiveram um telefone à mão?

A verdade é que as facilidades da tecnologia estão criando novos tipos de dependência. Ainda chegará o dia em que um executivo, no meio de sua exposição, repetirá o apelo dramático do rei Ricardo III: “Meu reino por um Power Point!”