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Roosewelt Pinheiro/ABr |
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| Guido Mantega: usou 84
slides em 40 minutos para provar as virtudes do PAC |
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No
reino do Power Point
Recurso
da informática tornou-se vício entre executivos
e homens públicos em apresentações de
planos de ação.

Por octávio costa
Aconteceu durante a apresentação do PAC no
Palácio do Planalto. Chamado pelo presidente Lula para
explicar o conteúdo do ambicioso programa, o ministro
da Fazenda, Guido Mantega, após uma rápida introdução,
deu início à sua apresentação.
Na verdade, manteve-se em silêncio aguardando que os
dois telões com imagens do Power Point dessem sinal
de vida. Sem solução à vista, pediu auxílio:
“Um técnico, por favor!” Não foi
preciso. O sistema entrou no ar, o ministro suspirou aliviado,
acionou o notebook e pôde levar adiante sua longa exposição
de 40 minutos, com o auxílio de 84 imagens. Mantega
fez bem em esperar: no mundo maravilhoso do Power Point, tudo
é perfeito.
As contas todas fecham e os ciclos de crescimento se cumprem
no devido tempo. Os juros caem, os investimentos acontecem
e a demanda fica aquecida, sem risco de repique inflacionário.
Os telões não deixam margem a dúvida:
o sucesso do PAC está garantido. Se dúvida restasse
entre os 25 governadores presentes, a apresentação
da ministra Dilma Rousseff, também lastreada em imagens
muito bem definidas, mostrou nos mínimos detalhes em
que setores e regiões do País o governo Lula
pretende aplicar R$ 503 bilhões nos próximos
quatro anos. A exposição de Dilma consumiu mais
uma hora e quase novas dezenas de slides.
Quem acompanhou a apresentação do PAC ficou
com uma pulga atrás da orelha. E se o Power Point falhasse?
O que fariam os dois ministros de Lula? Deixariam a exposição
para outra oportunidade? Evidentemente, não. Seriam
forçados a fazer o que sempre se fez nos tempos em
que não havia o recurso eletrônico. Teriam de
convencer pelas palavras e não pelas imagens. Em dias
não tão distantes, a clareza vinha das idéias,
e não das telas computadorizadas. E nem por isso os
executivos, públicos ou privados, tinham dificuldade
em apresentar suas estratégias e seus planos de ação.
Mas justiça se faça à informática:
as apresentações com powerpoint são mais
convincentes. Em slides coloridos, o planejamento fica menos
etéreo. Ganha mais solidez. O efeito positivo só
não acontece quando o expositor se limita a repetir
o que está demonstrado na imagem. Aí, a impressão
é de que se procura convencer o espectador a golpes
de repetição. As palestras, então, tornam-se
monótonas e aborrecidas. E o moderno Power Point, um
recurso inútil e irritante.
Que não se faça juízo errado: não
foi esse o caso das exposições de Guido Mantega
e Dilma Rousseff.
A pergunta, de qualquer forma, fica no ar: é possível
viver sem a ajuda do powerpoint? Na mesma linha de preocupação,
torna-se cada vez mais forte a dependência da humanidade
para com os telefones celulares. É espantoso o comportamento
de alguns executivos ao entrar em aviões. Passam pelos
fingers com os aparelhos ao ouvido, sentam-se sem interromper
a conversa, pouco se importando com quem estiver ao lado,
e só desligam a pedido da aeromoça quando o
avião já está na cabeceira da pista.
Assim que chegam ao destino, mal o avião aterrissa,
retomam a ligação. Se existe risco de incêndio,
não estão nem aí.
A falta de respeito ao próximo é a mesma nos
espaços públicos. Os negócios e os assuntos
particulares sempre são urgentes nos teatros, nos cinemas
e nos restaurantes. As ligações não podem
esperar. E os incomodados que se retirem. O que faziam essas
criaturas quando não existiam os celulares? Como sobreviviam?
Perdiam todas as janelas de oportunidades? Foram à
falência porque não tiveram um telefone à
mão?
A verdade é que as facilidades da tecnologia estão
criando novos tipos de dependência. Ainda chegará
o dia em que um executivo, no meio de sua exposição,
repetirá o apelo dramático do rei Ricardo III:
“Meu reino por um Power Point!”
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