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Construindo uma nova TR
Saiba o que está
por trás da proposta de alteração do
cálculo da taxa que remunera a poupança, em
análise no Banco Central

Por aline lima
Tradicional lanterninha nos rankings de investimentos, a
caderneta de poupança começa a incomodar a indústria
de fundos. Segundo levantamento do site financeiro Fortuna,
a rentabilidade da poupança alcançou 1,98% nos
últimos três meses, batendo a média de
1,83% dos fundos DIs mais populares – aqueles que exigem
aportes iniciais pequenos e cobram altas taxas de administração.
Coincidência ou não, os resgastes nesses fundos
somam, no ano (até 30 de novembro), R$ 2,3 bilhões.
Para fazer frente ao aumento de competitividade da poupança,
a Associação Brasileira das Entidades de Crédito
Imobiliário e Poupança (Abecip) resolveu levar
ao Banco Central, há duas semanas, uma proposta no
mínimo polêmica: alterar o cálculo da
Taxa Referencial (TR), índice que remunera a poupança.
Para baixo, claro.
O receio da entidade é de que a rentabilidade da caderneta
comece a atrair especuladores para a aplicação
aplicação. Os bancos passariam a utilizar, nesse
caso, recursos voláteis para os empréstimos
imobiliários (de longo prazo), uma vez que 65% do saldo
em poupança deve ser direcionado para a habitação.
Procurada, a Abecip recusou-se a falar sobre o projeto. “Quem
vai migrar com o objetivo de ganhar mais rentabilidade é
o pequeno investidor”, pondera o especialista em finanças
Rafael Paschoarelli, professor da Faculdade de Economia e
Administração da USP e autor do livro “A
regra do jogo – descubra o que não querem que
você saiba no jogo do dinheiro”. Segundo ele,
a poupança só passaria a ficar vantajosa para
o grande investidor estrangeiro, por exemplo, que é
isento de Imposto de Renda, se a Selic baixasse para um patamar
de 8% ao ano.
Para o pequeno investidor, ao contrário, a equação
atual de juros básicos de 13,25% ao ano mais taxas
de administração superiores a 3% ao ano cobradas
pelos fundos DIs está se mostrando desfavorável.
Se o investidor permanece por menos de seis meses na aplicação,
a rentabilidade é ainda mais prejudicada por conta
da alíquota de 22,5% de Imposto de Renda, a maior prevista
pela tabela regressiva. “O que precisa ser revisto não
é o cálculo da TR, mas sim as elevadas taxas
de administração praticadas no mercado”,
propõe Paschoarelli. Os bancos alegam que os custos
operacionais para manter esses fundos de varejo são
altos, já que é preciso gerenciar aplicações
e resgates de milhões de cotistas espalhados pelo País.
Administradores independentes de recursos, no entanto, rechaçam
tal argumento. As extensas redes mantidas pelos bancos de
varejo e os sistemas informatizados tornam esses custos marginais.
Não existem dados de mercado sobre quanto o sistema
financeiro fatura com as tarifas cobradas nos fundos. Mas
não deve ser pouco. Paschoarelli faz um cálculo
simples: para um fundo DI que cobre 4,5% ao ano de taxa de
administração e tenha um patrimônio líquido
de R$ 3,5 bilhões, basta descontar o percentual sobre
o montante para se chegar ao valor da receita que esse produto
geraria para o banco – aproximadamente R$ 160 milhões.
“Em vez de sortear um carro popular por dia, atrativo
utilizado por vários desses fundos, o banco poderia
premiar seus clientes com uma Mercedes que ainda sobrariam
mais de R$ 100 milhões”, diz. Ele lembra, ainda,
que boa parte desses fundos de varejo são Fundos de
Aplicação em Cotas (FACs), que compram parcelas
de outros fundos. Em outras palavras, é o tipo de produto
que não exige sofisticação do gestor
para que se pratiquem taxas de administração
tão altas. “Por trás do medo dos bancos
de que haja uma fuga de recursos dos fundos de investimento
para as cadernetas está o fato de que, captando por
meio da poupança, as instituições precisam
destinar parte dos recursos para a habitação,
em vez de usá-los em financiamentos mais vantajosos”,
diz Paschoarelli.
Exceção entre os bancos, a Caixa Econômica
Federal (CEF) descarta mudanças no cálculo da
TR, pelo menos por ora. “Não há motivos
para se propor alterações em um investimento
rentável, seguro e tradicional como a caderneta de
poupança”, afirma Fábio Lenza, vice-presidente
de negócios bancários da CEF. Na opinião
do executivo, não existe desequilíbrio entre
o custo de captação da poupança (TR +
6% ao ano) e o valor aplicado no empréstimo do SFH
(TR + 12% ao ano) para que uma proposta desse tipo vá
em frente. E acrescenta: “Queremos é captar cada
vez mais com a poupança.” A expectativa da Caixa
Econômica é oferecer mais de R$ 3 bilhões
em crédito imobiliário com recursos da poupança
no próximo ano. 
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COMPETITIVIDADE DA POUPANÇA
Juros em queda fazem caderneta
de poupança ganhar competitividade
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