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Força do trabalho Agnelli (ao
centro), na ferrovia Centro-Atlântica: grupo tem 38 mil
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A
empresa do ano Vale do Rio Doce
Com um marco dos
negócios brasileiros, a compra da canadense Inco por US$ 18
bilhões, mineradora coroa ciclo de vitórias que a levaram
ao topo da lista de AS MELHORES DA DINHEIRO

Por Marco Damiani, de
Nova York
Sobre linhas de ouro – ou melhor, de níquel,
ferro, alumínio, cobre, manganês e outras 40
espécies de metais e minerais –, a Vale do Rio
Doce escreveu na madrugada da terça-feira 24 um capítulo
maior na saga do capitalismo brasileiro. Numa operação
arquitetada no Rio de Janeiro, aprovada por órgãos
antitruste em Nova York e Bruxelas e sacramentada em Toronto,
no Canadá, a companhia brasileira comprou, depois de
dois meses em transe, 75,66% das ações da canadense
Inco, dona das maiores reservas de níquel do planeta.
Em depósito à vista, efetuado na sexta-feira
27, a Vale arrebatou o controle por US$ 13,4 bilhões,
fechando a maior compra feita por uma empresa com sede na
América Latina em toda a história. Nos próximos
três meses, os demais 24,34% do capital da Inco serão
incorporados ao portfólio da empresa brasileira pela
bagatela de US$ 4,6 bilhões, levando a operação
ao patamar total de US$ 18 bilhões. A partir de agora,
a Vale passa a ocupar o segundo lugar no ranking das maiores
mineradoras do planeta, amplia sua presença física
de 18 para 40 países e eleva seu faturamento anual
para a casa dos US$ 21 bilhões, acima de ícones
da economia global como a Coca-Cola (US$ 19,18 bilhões),
a Goodyear (US$ 19,96 bilhões) e a Bellsouth (US$ 20,69
bilhões). Um prodígio para esta empresa nascida
estatal, privatizada em 1997 e que, este ano, antes mesmo
da aquisição da Inco, atingiu o topo do ranking
de AS MELHORES DA DINHEIRO, com um desempenho de excelência
entre as 500 maiores companhias do País.
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300 milhões de
toneladas de minério de ferro devem ser produzidas pela
empresa em 2007 |
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O arrojo da Vale está tirando o fôlego do mercado
– e também o sono de seu principal executivo.
Roger Agnelli, a face à frente da mineradora brasileira
desde julho de 2001, não conseguiu pregar os olhos
na madrugada do sábado 21. Começara na véspera,
na bolsa de valores de Toronto, a retirada de formulários,
pelos acionistas da Inco, para concretizar a entrega das ações.
Essa operação só terminaria à
meia-noite da segunda 23, e, caso 66% dos acionistas não
aceitassem a oferta brasileira, o processo seria suspenso.
“Fiquei fazendo contas na minha cabeça, imaginando
quantos iriam aderir à nossa oferta”, disse Agnelli
à DINHEIRO na manhã daquele sábado. Na
segunda-feira, 16, uma semana antes de fechar o negócio,
Agnelli já aparecia como uma estrela dos mercados internacionais
ao tocar o sino da Bolsa de Nova York, comemorando o CVRD
Day (Dia da Vale) em Wall Street. Logo depois, conversava
com a DINHEIRO sobre seus planos. Via-se nele uma mistura
de apreensão e otimismo ao relatar como, num gesto
ousado, convencera o conselho de administração
da companhia de que pagar US$ 18 bilhões pela Inco
seria o melhor investimento no futuro da empresa. Argumentou
que o setor atravessa um momento de fusões e aquisições,
do qual ficar de fora representaria um risco de sofrer uma
oferta hostil de compra a qualquer momento. Noutras palavras,
era preciso atacar antes de ser atacado. Agnelli e seus principais
auxiliares – os diretores Fábio Barbosa, Murilo
Ferreira, Tito Martins e José Lancaster – passaram,
então, a concentrar energias em torno da Inco. Todos
eles trabalham em uma mesma sala, na sede da Vale, no Rio
de Janeiro, e costumam pensar em voz alta. “Trabalhamos
num regime de mútuas provocações”,
define o diretor Ferreira. Sob a coordenação
de Barbosa, ex-secretário do Tesouro, a Vale montou
um pool de bancos e, sob promessa de pagamento em dois anos,
obteve entre Santander, ABN-Amro, UBS e Credit Suisse o dinheiro
necessário para a oferta à vista. Foi um golpe
de impacto. Àquela altura, em agosto deste ano, a gigante
americana Phelps Dodge oferecia à Inco uma proposta
de fusão, por meio de cruzamento acionário e
pagamento de 20% do valor em dinheiro.
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Mundo mineral: Minas
e usinas da empresa, como a da Alunorte (esq.),
produzem 40 espécies de metais e minerais |
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O gesto de Agnelli, ao passar por cima dos entendimentos
e colocar sobre a mesa a proposta bilionária, assustou
o mercado financeiro. Questionou-se, de saída, a capacidade
da Vale em pagar o dinheiro a ser emprestado. Temia-se, ainda,
que o empréstimo provocasse o efeito colateral de rebaixar,
diante das agências de classificação de
risco, o grau de investimento obtido pela companhia no ano
passado. As interrogações à volta da
megaoperação provocaram uma forte queda no preço
das ações da Vale. Agnelli e seus escudeiros
na diretoria da companhia, entretanto, não se abalaram.
Fábio Barbosa saiu a campo para tomar contato com outros
bancos dispostos a dividir o risco da operação.
Em réplica, viu dezoito instituições
oferecerem um total de US$ 33 bilhões para o caso de
a Vale precisar de um refinanciamento, com prazos mais largos.
“Ainda não sabemos se iremos usar esta alternativa”,
diz ele. Enquanto o segundo pool era montado, o próprio
Agnelli percorria os órgãos antitruste dos Estados
Unidos e da União Européia para demonstrar que
a operação não iria criar um monstro
monopolista no mercado mundial. A bordo do Challenger da companhia,
ele passou a fazer pousos regulares em Toronto e outras cidades
do Canadá, assumindo compromissos pessoais com as autoridades
do país e os sindicatos de trabalhadores de que não
haveria interrupção de produção
e cortes de empregados. “Estou com déficit de
sono e superávit de trabalho”, definia.
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Foto: Arthur Nobre
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Alto comando:
Agnelli (em primeiro plano) e os diretores da Vale após
tocarem o sino na Bolsa de Nova York - remuneração mínima
prometida a acionistas é de US$ 1,3 bilhão |
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Fortalecida pela aquisição – não
houve qualquer rebaixamento em sua condição
de grau de investimento –, a Vale do Rio Doce tem agora
diante de si uma cordilheira de oportunidades. Maior exportadora
do mundo de minério de ferro, cuja tonelada é
cotada por US$ 40, em média, a companhia vai experimentar
a sensação de subir a um novo patamar. O níquel,
afinal, vale mais de US$ 20 mil por tonelada, em média
– e a Inco domina 19% do comércio mundial. É
como se o azeitado motor da Vale ganhasse a inclusão
de um turbo-compressor. “Não estamos acostumados
a mexer com toneladas de tanto valor”, reconhece um
executivo da companhia. “Isso muda tudo.” A tarefa
prioritária é colocar os técnicos da
companhia dentro da Inco para estimarem as potencialidades
do negócio. “Sabemos que a companhia é
sólida e saudável, mas a partir da posse poderemos
definir o ritmo das prospecções, escolher as
alternativas e calcular as possibilidades de ganho”,
explica Barbosa.
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Humberto Franco |
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Produção consciente:
Em torno de minas como Taquari (acima) e Brucutu
(no alto, à dir.), preocupação com a ecologia
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Com a operação, a Vale completa um ciclo virtuoso
que teve na privatização da companhia, em maio
de 1997, um momento dramático. Até ali, a empresa
sempre trabalhara no azul, batendo seguidos recordes de produção
e faturamento. Os críticos da venda trabalhavam com
esse fato para concluir que não havia motivos para
colocá-la sob o martelo. Dois bancos estrangeiros fizeram
a avaliação da Vale pelo critério do
preço médio das suas ações cotadas
em bolsa nos 90 dias anteriores ao leilão. Não
incluíram nas contas o potencial das reservas minerais
em poder da empresa. Ficou no ar a impressão de que
a Vale foi vendida abaixo de seu real valor, por US$ 3,3 bilhões
para pouco mais de 40% do capital, o suficiente para o exercício
do controle. Para atenuar as críticas, o governo manteve
em seu poder seis ações do tipo golden share,
com as quais pode exercer vetos no caso de venda para grupos
estrangeiros. O consórcio formado pela CSN, Bradespar
e Previ levou a melhor. Benjamin Steinbruch, presidente da
empresa siderúrgica, logo assumiu a frente da Vale,
mas três anos depois teve de abrir mão de sua
posição em razão de conflito de interesses
entre ser fornecedor e, ao mesmo tempo, transformador de minério
de ferro. Chegava a vez de Roger Agnelli, um aplicado executivo
com carreira desenvolvida dentro do Bradesco, assumir as rédeas.
O que se viu, a partir dali, foi a Vale pensando grande
– e ganhando o mundo. Nada menos que 16 novos projetos
de mineração foram implantados em sua gestão.
Países africanos, a Austrália e a China passaram
a ter minas exploradas pela companhia brasileira. O número
de empregos diretos passou de 15 mil para 38 mil. Apenas nos
últimos dois anos, a companhia realizou investimentos
de US$ 8,78 bilhões. Houve aumento na capacidade de
produção de praticamente todas as principais
minas da companhia no País: Carajás, Brucutu,
Itabira, Fazendão e Fabrica. Só em logística,
a Vale aplicou US$ 730 milhões no ano passado. Tornou-se,
na prática, a maior responsável pela ressurgimento
da indústria de material ferroviário no País,
em razão das encomendas para suas demandas de transporte.
A companhia possui uma frota de nada menos que 957 locomotivas
e 37,9 mil vagões para transportar seus minérios.
A extração de minério de ferro, neste
contexto, vai alcançado marcas nunca antes imaginadas.
A mesma companhia que produziu 133 milhões de toneladas
em 2001, chega este ano a 264 milhões de toneladas
e trabalha com a previsão de atingir 300 milhões
de toneladas já em 2007. Aos acionistas, entre 2001
e 2005, a empresa pagou US$ 4,4 bilhões de dividendos.
O lucro líquido, de cerca de R$ 1 bilhão na
etapa final da era estatal, chegou a R$ 10,4 bilhões
no ano passado. O valor de mercado da empresa foi estimado
em maio deste ano em US$ 66 bilhões, número
já superado diante da aquisição da Inco
(juntas, as duas companhias têm valor de US$ 77 bilhões).
O desempenho produtivo vai sendo acompanhado de uma ampla
política de responsabilidade social. Estima-se que
os projetos sociais tocados pela Fundação Vale
do Rio Doce atinjam três milhões de pessoas no
País. A Fundação mantém programas
que vão do ensino de música erudita a nove mil
crianças e adolescentes, passa qualificação
de mais de 300 escolas públicas no interior do País
e inclui a alfabetização de adultos. Nesses
projetos, a Vale está investindo US$ 175 milhões
este ano. No quesito responsabilidade ambiental, a companhia
também pode considerar que está passando pelas
mais duras provas. À volta de sua maior mina, a de
Carajás, no sul do Pará, a Vale assume a proteção
de 1,2 milhão de hectares de florestas, ou 40% da área
de um país como a Bélgica. A totalidade do minério
de ferro exportado pela empresa sai de minas certificadas
com ISO 14001. Com esses resultados, até mesmo os críticos
da privatização da companhia reconhecem na Vale,
cada vez mais, um motivo de orgulho para o Brasil e os brasileiros.

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OS GRANDES MOMENTOS DA VALE
Empresa cresceu ano a ano e ganhou velocidade
e força com privatização |
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| 1985
Entra em operação o projeto Ferro Carajás, com
a exploração de reservas de 18 bilhões de toneladas
de ferro no sul do Pará. Dali foram extraídas 14,1 milhões
de toneladas de granulados em 1986 e o dobro em 1987 |
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A PALAVRA DO PRESIDENTE
“A Vale adquiriu o sentido da urgência”
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Arthur Nobre |
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Agnelli
em Wall Street: Logo após participar
do CVRD Day na Bolsa de Nova York, o executivo
falou à DINHEIRO. Confira trechos da entrevista |
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DINHEIRO – Qual é o plano
estratégico da Vale?
Roger Agnelli – Vamos aproveitar
as pessoas, o conhecimento e a bandeira da Inco
para transformá-la numa empresa de excelência.
A idéia, nesta operação,
é crescer com parcimônia. A Vale,
enquanto isso, vai continuar privilegiando o seu
crescimento orgânico. Pretendemos aumentar
nossa produção em carvão,
cobre e alumínio.
Houve algum momento em que os US$ 18
bilhões pela Inco lhe pareceram um preço
exagerado?
O receio, lá atrás, era
a possibilidade de perdermos o grau de investimento
junto às agências de classificação
de risco. Mas isso se mostrou um temor infundado.
O certo é que, com a Inco, a Vale aproveitou
uma oportunidade histórica para se consolidar
no mundo.
Quais as diferenças entre a Vale
dos tempos de estatal e de hoje em dia?
A empresa, agora, tem o sentido da urgência.
O que conta é, exclusivamente, o interesse
comercial, o ganho para o acionista. Uma empresa
controlada pelo governo tem compromissos que,
muitas vezes, a impedem de realizar um bom negócio.
Nós não temos esse tipo de amarra.
A Vale não teria a força de hoje
se continuasse estatal.
Depois da privatização,
o valor de mercado da Vale cresceu mais de dez
vezes. A privatização pode ser um
bom caminho também para a Petrobras?
Acho a privatização da
Petrobras um sonho impossível. No mundo
todo, o setor de petróleo tem forte presença
do Estado e demanda pesados investimentos. Não
há indícios de que esse quadro mude
no curto ou médio prazos.
Qual é a sua receita de trabalho?
Aprendi com meu pai: disciplina e curiosidade.
É preciso ser rigoroso com horários
e querer saber sempre mais sobre seu negócio. |
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